terça-feira, 14 de agosto de 2007

Qual é o Seu Pedido?

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


No último sábado eu fui, depois de constantes indicações da Leila, assistir à peça “Qual é o Seu Pedido?”. O espetáculo, apresentado pelo grupo “Anônimos S.A.”, se trata de uma apresentação um tanto cômica e imprevisível, por ser formada basicamente por esquetes de improvisação. O nível dos atores é impressionante. Muita criatividade e promessa de risos desmesurados é o que espera quem resolver aproveitar a temporada que vai até o dia 18 de agosto.

É claro que, numa situação dessa, em que os atores tem de arriscar constantemente e pôr em funcionamento o máximo de sua criatividade, muito besteirol pode sair. Mas nada que não esteja dentro dos parâmetros que, aliás, são ditados pela platéia. A qual interage do início ao fim. O cenário é uma espécie de bar e os atores seriam os supostos “garçons” prontos para atender todo e qualquer pedido do público. Para pôr ordem à bagunça, são distribuídos alguns cardápios em que os desafios vêm no lugar dos pratos. E com nomes nada convencionais.

A apresentação é organizada na forma de uma competição. Os cinco garçons são apresentados e a platéia “tira” os times. De um lado os verdes, do outro os laranjas e no meio o ator curinga, que participa atuando em ambas as equipes.

O legal da peça é que, a cada nova apresentação, o resultado é sempre novo. As situações mais que inusitadas prometem. Para aqueles que sempre se queixam da programação morna da capital, está aí um ótimo pedido. Faça o seu.



De 10 a 18 de agosto. Sexta e sábado às 21h. Domingo às 20h. Teatro Nacional Cláudio Santoro - Sala Martins Pena. Censura Livre. Ingressos R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Antecipados: Chilli Beans e bilheteria do Teatro Nacional. Doadores de 1Kg de alimento não perecível pagam meia. Informações: 8111-7868 ou 3325-6240.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A vida secreta das palavras


- - - de Tereza_, para o na Vitrine.


Uma mulher loira, não muito bonita, não exatamente feia, com olhos muito mais velhos que o resto do rosto, janta, lava a louça, e se deita sem fechar aos olhos. Ao fundo uma voz infantil relata fatos do cotidiano: ela afaga meu cabelo, me conta histórias, canta pra mim, ás vezes chora... E cena.

Quem é a criança? Quem é essa mulher? Essa é a questão do filme. Ela não fala muito, gosta de ser deixada em paz, mal reage. Apenas sobrevive.

Ela pega um ônibus, duas senhoras discutem Vin Diesel e Van Dame. Conclusão, Vin Diesel é melhor ator, Van Dame talvez tenha mais músculos. Será isso importante? Será que qualquer coisa da vida importa?

A mulher, Hanah é seu nome, é contratada como enfermeira para cuidar de uma vítima de um acidente em uma plataforma de Petróleo que esta sendo desativada.

Longas cenas de dialogo, com cortes que parecem pulos no tempo mas na verdade são voltas. O acidentado é um americano que apesar de temporariamente cego e com queimaduras dolorosas pelo corpo todo, aparentemente não consegue parar de falar. Inicialmente ele destoa do resto do filme, que é escuro, fechado, silencioso, mas ele é um dos personagens mais tristes.

Através de mentiras ela conta verdades pra ele, no que se revela ser um recorte de tragédias. Como apreciar a vida, ser simpático a tragédia de outros, não achar tudo obsoleto, quando a pior coisa do universo aconteceu com você? Quando até a morte é uma benção que te é negada?

Ele é melodramático e carente, ela seca e divertida. Por mais devastadora que seja a história nunca é piegas ou melosa. Tem até seus momentos de leveza. Um mistério é instigado, mas quando for a hora de você saber a verdade será que vai ter estomâgo?

Eu entendo a intenção do filme, é importante que certas coisas não sejam esquecidas, mas será que depois de tudo ainda é possível um final feliz?

A voz infantil acredita que sim, aparecendo numa hora em que já nem me lembravámos dela. Resta saber se nos acreditamos nela.

O filme é ousado, mas não saí dele pensando "nossa, que filme bom" e sim "nossa que filme triste". Será isso o suficiente?

Paris, Te Amo

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

Lindo, singular e encantador. Esse filme a várias mãos me deixou alegre por dias.

O filme na verdade é uma coletânea de curta-metragens, cada um com diretores e elenco próprios; todos, porém, gravados na Cidade das Luzes. É complicado fazer uma crítica do filme como um todo, uma vez que cada fragmento do texto tem suas próprias qualidades e nuances. Mas o incrível é que não há nenhum curta ruim ou fraco. São duas horas de graciosidade e aquela espécie estranha de nostalgia sobre uma época nunca vivida.

Entre os grandes nomes envolvidos de alguma forma com o projeto estão o diretor Alfonso Cuarón e os atores Natalie Portman, Maggie Gyllenhal e Elijah Wood.

O curta de Cuarón, o segmento Parc Monceau, é um diálogo super bem-feito entre duas personagens que, a princípio, não dá para saber sua relação. O curta que foi gravado em uma única tomada, imagino que tenha aproximadamente 10 minutos, nos leva a deduzir uma história que, na verdade, é outra.

Natalie Portman, uma atriz amadora (no curta, pelo amor de Deus), vive um caso de amor com um garoto cego. A garota, para variar, dá um espetáculo de atuação.

Maggie Gyllenhall também interpreta uma atriz. E seu francês está impecável. Não que eu tenha grandes parâmetros para comparar, mas ela me convenceu totalmente. Ela falava com tanta naturalidade. E, aliás, que idioma gostoso de ouvir, não? É tão apaixonado...

Já Elijah Wood entra num conto de amor para lá de psicodélico com uma vampira, em uma cidade azul ciano. O sangue estilizado da cena, tudo, criou um ar estético tão non-sense em relação aos outros filmes, que acabou sendo um efeito interessante.

Entre outros fragmentos que me encantaram estão o primeiro, que é um encontro não muito casual entre estranhos, o dos mímicos e outro sobre um casal a ponto de se divorciar, quando a mulher descobre que tem uma doença fatal e o marido não tem coragem de partir; é quando eles reaprendem a se amar.

Como eu disse, todos os curtas são muito bons. Tudo é muito bonito e, além da vontade de conhecer a cidade, o filme dá uma vontade muito forte de ser feliz. Comigo, pelo menos, foi assim e funcionou.


imagens em http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/

sábado, 11 de agosto de 2007

A Saga do Tio Patinhas


- - - de Tereza, para o na Vitrine.


Carl Barks é um dos quadrinistas mais importantes de todos os tempos, e com certeza o mais importante da Disney. Também conhecido como homem dos patos, foi nas mãos dele que o universo de Patópolis e a personalidade atual do Pato Donald tomaram forma. Seu personagem mais complexo porém, sempre será Patinhas McPatinhas, ou simplesmente Tio Patinhas.

Ao longo do seus anos de trabalho Barks deixou várias pistas do passado do pato mais rico do mundo em suas histórias, mas nunca montou uma biografia oficial.

Isso só aconteceu no início dos anos 90, quando a Don Rosa, discípulo confesso de Barks, foi encomendado pela Disney uma edição de aniversário, que pudesse seguir, na medida do possível, a cronologia proposta por seu criador.

Quase 17 anos depois, finalmente chegou ao Brasil uma das mais bem feitas compilações dedicadas ao formato. No estilo americano, papel especial e um puta comentário editorial "A Saga" é um deleite.

Dividos em três livros, as histórias narram desde o jovem Patinhas na Escócia, ganhando a moedinha número 1, até suas aventuras, já como o pato mais rico do mundo, com seus sobrinhos Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho.

Patinhas fez de tudo, foi cowboy, garimpeiro, dingo e grumete. No ínicio tinha ambições modestas, ir para América para conseguir mandar dinheiro pra família, mas a medida em que vai conhecendo o mundo e se desencantando com ele, seus sonhos de grandeza vão aumentando, chegando ao ponto de se alienar quase totalmente.

Mas vou me adiantando. Patinhas começa como um jovem esperto porém, ingênuo que aprende desde cedo que com trabalho duro e perseverança tudo pode ser alcançado. Ele encontra muitos bandidos pelo caminho, inclusive o protótipo do que seriam os irmãos Metralha, mas é apenas com o bandido McMônei, em um dos melhores capítulos da história, que alguma coisa se quebra em suas convicções. Não vale a pena confiar nas pessoas, é melhor se virar sozinho, pois senão você pode ser passado pra trás. Até o dia em que contraria tudo o que foi ensinado e, por puro orgulho, resolve se vingar de alguém que aparentemente não é seduzido pelo dinheiro. Atinge o fundo do poço, e só com muito esforço consegue sair. E isso tudo vem de um pato falante.

Carismático, corajoso, esquentado e muquirana, conhecendo sua família dá pra entender o porque dele ser assim. Além dos pais e das irmãs, vemos seus ancestrais e suas primeiras ligações com a família da vovó Donalda.

A Saga também está intimamente ligada a história americana, misturando os personagens Barkasianos com pessoas reais (Patinhas deu uma surra em todos eles), como Bufalo Bill e o presidente Roosevelt. Inclusive ótima a cena em que sua irmã Hortência, mãe do Pato Donald, dá um sermão em Teddy reclamando o voto feminino.

Os capítulos com Dora Cintilante, o grande amor da vida dele, são altamente sugestivos ("vocês são jovens demais pra isso" afirma o Pato Donald quando seus sobrinhos perguntam sobre ela), e estão entre os melhores. Afinal, como seria um vida de perigos e aventuras sem um romance.

A arte é mais do que maravilhosa, de um realismo impressionante, uma completa atenção aos detalhes, gags visuais fantásticas, algumas cenas parecem que poderiam ser emolduradas. Sem exagero, só as sombras já seriam o suficiente para um estudo artístico.

Por fim, a grande lição é que muito mais importante que o destino, é a jornada. E você está convidado para essa.



terça-feira, 7 de agosto de 2007

21 Gramas

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

"Dizem que perdemos 21 gramas no preciso momento da nossa morte...todos nós. O peso de cinco moedas. O peso de um pedaço de chocolate. O peso de uma borboleta...Quanto pesa a vida?"


Título Original: 21 Grams
Gênero: Drama
Direção: Alejandro González-Iñárritu

Essa crítica, vou começar pelo defeito: o roteiro. Não quero dizer que ele seja mal feito ou mal trabalhado, mas a verdade é que eu já enjoei disso: recortes de cenas, vindas de espaços, tempos e personagens diferentes, montando um grande quebra-cabeça que só vai fazer sentido no final, à la Crash, O Grande Truque, Babel (por sinal, do mesmo diretor)... para citar os mais recentes, apesar de existirem muitos outros semelhantes. Pra ser sincero, essa é exatamente uma característica que teria feito o Rafael de alguns anos atrás se apaixonar perdida e loucamente pelo filme. Acontece que, não sei, essa receita não me impressiona mais. E quer saber, eu nem deveria ter escrito que isso é um defeito. Eu sei que, nas Artes principalmente, nada se cria; tudo se copia. Esse parágrafo foi tão pessoal que não faz nem sentido. Por tanto, a menos que você tenha se identificado com os meus sentimentos, para você a crítica começa agora.

21 Gramas é um desses filmes de beleza plástica. A câmera tremida, sabe, dá aquele ar de cinema alternativo muito gostoso. E o efeito não engana. É muito bem encaixado. Os filtros de cor também, causando um contraste sutil, uma impressão meio opaca. É tudo muito impressionante e bonito. Mas nada tão na cara. A beleza da fotografia é tênue... Apreciei bastante.

É um filme de impressões. Com símbolos muito fortes. Numa das primeiras cenas, um pai e suas duas filhas pequeninas sentados numa lanchonete, eu senti isso. O close da câmera está num canudo saindo de um líquido negro e borbulhate. A cena vai abrindo e descobrimos, em segundos apenas, que é a criança quem sopra o canudinho para borbulhar sua Coca-Cola. Mas a sensação inicial não era essa. Era de algo mais nojento, eu imaginei que fosse alguma droga, não sei porquê (alguém já ouviu falar em uma droga líquida, negra e borbulhante? Eu não). E, então, as crianças com seu pai. Um jogo muito estranho. Durante todo o filme, tudo permaneceu com a sensação de ser mais bonito do que parecia. Mesmo as cenas fortes, com drogas (de verdade) e sangue.

“Um filme de AMOR, ESPERANÇA e VINGANÇA”, dizia na capa do DVD. Mas, sinceramente, eu não esperaria encontrar muito disso não. Na verdade, por mais que seja uma trama complicada, e personagens profundos, tudo me pareceu justamente sem história. As cenas são ótimas. Mas não há lições de moral, e nem fica tão claro qual era o coração da trama. Eu diria que é, antes, um filme de como a vida passa, de como as pessoas são. Assim mesmo, sem grandes propósitos, como se o tempo simplesmente passasse. Apenas isso. O que não é pouca coisa.

O incrível é que eu sinto que o filme me impressionou da forma justamente oposta à proposta do diretor. Gostei muito das suas qualidades, mas não me surpreenderia se qualquer um achasse essa crítica completamente precipitada.

na Vitrine.