terça-feira, 24 de agosto de 2010

Os Fidalgos da Casa Mourisca

- - - de _Renata, para o na Vitrine.


Esse post na verdade é uma resenha que eu tive que escrever sobre um dos livros do semestre de Romantismo Português. Não é exatamente uma recomendação, apesar de eu ter gostado do livro, mas mais uma análise feita a partir das teorias que estudamos na matéria.
Eu só vou colocar mesmo porque tem muito tempo que não publico nada xD
Não leiam se não quiserem. Nem vai ter figuras, porque eu não achei uma imagem decente relacionada no google.

Os Fidalgos da Casa Mourisca, escrito por Julio Diniz e publicado no ano de 1871 em Portugal, é categorizada como uma obra do romantismo luso, de grande importância para a literatura do país da península ibérica.

Mas em um plano mais político e social, esse livro possui vivo destaque. Com astúcia, qualidade descritiva, enredo interessante, personagens bem desenvolvidos e cenário palpável, o autor preconiza suas visões favoráveis ao liberalismo, a doutrina emergente e revolucionária da Europa do séc. XIX e deliberadamente critica a decadente aristocracia.

A história é narrada de maneira bela e sem linguagem rebuscada, mas ao mesmo tempo, exigindo do leitor vocabulário e interpretação de texto consistentes.

Em uma aldeia portuguesa, uma família fidalga se refugia por anos do fim do absolutismo, em uma mansão conhecida na região como Casa Mourisca.

O senhor da moradia é Dom Luis, nobre orgulhoso, exausto com a tristeza trazida pelos anos. Seu sofrimento maior encontra-se na perda da filha mais jovem, a pura e delicada Beatriz, falecida por doença na adolescência.

O lar reflete perfeitamente seu espírito conturbado. A propriedade nada produz, dependendo de recorrentes dívidas e hipotecas para, fragilmente, se sustentar. A responsabilidade das economias da casa recaem sobre o péssimo administrador, Padre Januário, morador por conveniência do local.

O protagonista do romance figura-se em Jorge, rapaz belo, maduro, de caráter admirável, estudioso e portador de profunda seriedade. É o filho mais velho de Dom Luis, e que ao observar a prosperidade das propriedades vizinhas, em grande contraste com a sua, prontifica-se a regularizar a situação, tornando-se o novo administrador econômico. Uma atitude como essa o rebaixa diante da nobreza, pois o trabalho é visto como função do homem comum, plebeu. A ajuda financeira para tal empreitada é fornecida por Tomé, um agricultor abastado, mas de origem humilde (outrora serviçal da própria Casa Mourisca) e que com esforço evoluiu.

Dentre outras figuras importantes do livro, estão Maurício, o irmão mais novo de Jorge, Berta, a filha de Tomé e Gabriela, a prima viúva da família fidalga.

Maurício é um jovem leviano e volúvel, facilmente impressionável. Diferente do irmão, ele possui hábitos supérfluos mas não é mau caráter. Berta espelha a imagem viva de Beatriz. Graças às condições financeiras do pai, cresceu educada em Lisboa, aprendendo a se portar como uma nobre, mas permanecendo humilde, gentil, delicada e pueril. Já Gabriela é uma mulher experiente da sociedade urbana. Sagaz, intuitiva e atenta, ela busca o melhor para sua família e para si.

Na obra em si, não há uma personagem antagonista principal, entrando em choque direto com Jorge e seus interesses. Há, no entanto, imagens antagônicas que podem ser identificadas. Os primos fidalgos do Cruzeiro, influenciando negativamente Maurício, estão entre essas imagens.

Por isso, todos os conflitos do livro, no fim, resolucionam-se através da argumentação e do diálogo, sem necessitar de batalhas dramáticas, mortes ou fugas.

Jorge e Berta, ao perceberem-se apaixonados, e sendo de classes diferentes, decidem reprimir tal sentimento e escondê-los de seus familiares. Dom Luis, com a força de sua teimosia e orgulho, abandona a Casa Mourisca ao descobrir sobre o empréstimo de Tomé. Esses dois arcos da história tornam-se as principais questões, aparentemente sem solução.

Ao final, uma redenção por parte de Dom Luis ocorre. Seu carinho por Berta, a qual o lembra muito Beatriz, o faz reconhecer que a nobreza não corre no sangue, e sim no espírito de uma pessoa. O casamento é celebrado e Jorge reconstrói, através do trabalho e com dedicação, a propriedade de sua família.

Na verdade, a narrativa toda de Fidalgos da Casa Mourisca é somente um pretexto para o embate entre as filosofias liberais e absolutistas, com a vitória óbvia do liberalismo. O narrador nos manipula a todo momento, através da metalinguagem e de palavras tendenciosas para que sintamos empatia pelos virtuosos Jorge e Berta, torcendo pela sua união e felicidade. Também procura incitar nossa rejeição pela nobreza, afundando-os em vícios e atitudes condenáveis tais como ócio e o jogo.

Gabriela é uma fidalga, mas partidária do liberalismo. Como suas ideias tendem para este lado, as suas ações minuciosamente premeditadas colaboram fortemente para o final harmonioso da obra. Gabriela é em realidade, o instrumento do narrador para o triunfo daquilo que ele considera o “bem”.

Os princípios liberais são exaltados a todo momento. Em uma cena memorável, o escritor português Almeida Garret, falecido alguns anos antes da publicação do livro, é citado entre um círculo de fidalgos decadentes. Pelas visões convergentes com a do próprio narrador, Garret é duramente criticado. Essa cena transborda ironia, provocando também verossimilhança. É como se o autor quissesse que seus personagens mais desprezíveis demonstrassem rancor por seu próprio criador.

Já Jorge, sofre a mais ilustre metarmofose. O labor é sua maior companhia, a concentração e o investimento de capital, seus aliados. A leitura de filósfos iluministas é seu guia. As conquistas de suas aspirações tornam-se para os leitores, inevitáveis.

Na última página do romance, Jorge é intencionalmente classificado como um burguês, um homem respeitado por todos e visto como um exemplo a ser seguido. As últimas linhas até retomam uma citação do início do livro, que mencionava tesouros dos mouros possivelmente escondidos debaixo do solo da casa. Esse tesouro transforma-se então em uma metáfora, desenterrada pelas mãos calejadas mas robustas de Jorge.

Mas grande vitória para o liberalismo, na obra, não está na transformação de um jovem nobre em um burguês competente, e sim na submissão de um ancião absolutista à “sublime” filosofia. Sem a quebra do caráter considerado reacionário de Dom Luís, incitada pelo carinho paradoxal dele por Berta (uma dama sem sangue azul), a mensagem de Júlio Diniz estaria incompleta. Não haveria êxito para o narrador se os amantes tivessem de fugir para realizar sua união ou se Dom Luís morresse antes de abençoar as ações burguesas do filho e o casamento entre as diferentes classes. Nesse ponto, o extremo é essencial: ou o liberalismo domina por completo, trazendo promessas de ventura, felicidade e prosperidade, ou não.

Porém, para atrair o público e espalhar suas ideologias, o autor necessitou escrever seu livro dentro dos padrões vigentes da literatura de seu tempo. Assim, Fidalgos da Casa Mourisca possui elementos distintos do romantismo português, tais como: exaltação da natureza e utilização desta para descrição de sentimentos basicamente egocêntricos como melancolia e nostalgia, idealização da mulher como ser virgem e pueril, dramaticidade nas ações e diálogos e indicações de sentimento nacionalista.

Inclusive, o Patético de Schiller encontra-se profundamente presente na narração. Sendo esse Patético considerado a repressão da emoção através da razão, o ímpeto de não revelar a ninguém, não importando o esforço, o que se passa no interior sentimental da personagem, Jorge e Berta encaixam-se perfeitamente no perfil.

Ele, ao perceber o início de amor que o simples pensamento nela lhe causava, passou a evitá-la ao máximo, concentrando-se em estudos, viagens ou qualquer outra coisa. Seu físico quase não aguentou, ficando em determinado ponto da obra, doente. Já Berta, ao percebe-se apaixonada por Jorge e sem compreender a frieza dele para com ela, aceita um pedido de casamento de outro homem, que mal conhecia. Depois, mesmo sabendo da reciprocidade que possuíam, os dois decidem que ela deve seguir com o casamento, pois acreditavam suas famílias jamais poderiam conceder o matrimônio.

Outra importante característica romântica de Jorge é o seu perfil de herói problemático. Um herói insatisfeito com o ambiente à sua volta, que sai em uma busca degradada, mas degradada de acordo com os valores vigentes. Uma empreitada burguesa em um ambiente nobre, como já visto, com certeza é considerado um ato de rebaixamento.

Por fim, é preciso lembrar que Fidalgos da Casa Mourisca foi escrito em uma época em que Portugal ainda em encontrava-se em uma transição socio-econômica. Para não insatisfazer parte do público leitor, inserido nessa transição, Júlio Diniz lapidou seu principal par romântico, procurando torná-lo verossímil e nivelado. Jorge é o nobre aburguesado. Berta é a burguesa com educação nobre. Sem esses elementos, o romance perderia boa parte de sua calculada e complexa confecção.

sábado, 24 de julho de 2010

Bastardos Inglórios

- - - de Rafael, para o na Vitrine.




(Contém spoilers)

Ok, com muito, muito atraso, vamos falar de Bastardos Inglórios. Para muitos a obra prima do diretor. Eu mesmo posso dizer que preferi à Kill Bill. Nem vi o segundo, mas só pelo ‘clima’ já deduzo o resultado. Mas vou tentar ser relevante, justamente trazendo o olhar de um não-adorador-de-Tarantino que sinceramente apreciou Bastardos Inglórios. Então vou tentar não dar uma de esperto.

Vamos direto pros personagens. Primeiro personagem fundamental: os diálogos. Juro que li pela internet gente falando que ‘os diálogos são muito compridos’ e que em cinema ‘mostrar vale mais que contar’. Pessoalmente, não concordo. Cinema é uma linguagem e se manifesta de qualquer jeito. Pra mim o Tarantino foi muito feliz em toda e qualquer palavra que aparece nesse filme. As redundâncias do filme – encenações de eventos anteriormente narrados – não me pareceram desnecessárias, tendo em vista o clima de tensão da narrativa. Sem esses pontos de apoio talvez o espectador não se sentisse confortável com o ritmo dos acontecimentos. E, sabe, no fim isso é uma questão muito mais estilística do que de qualidade. O Tarantino não ‘errou’ na dose do blábláblá: ele QUIS colocar o blábláblá ali. É diferente. Pra mim funcionou muito bem.

Próximas personagens fundamentais: a vingança e a violência. Confesso que não tenho estômago para isso (simples como 1 + 1 = 2). Mas ocorre no mesmo sentido: o Tarantino QUIS aquela violência ali, daquele jeito. Tem gente que gosta, eu acho desnecessária. De qualquer forma, me pareceu muito mais controlada e eficiente que em Kill Bill. Quer dizer, há uma justificativa muito mais convincente, sem com isso abrir mão do exagero e da banalização. E afinal, é um filme basicamente sobre vingança – a vingança natural contra um asco infundado (a história do rato), a vingança contra os alemães e, no final, uma vingança contra a própria história. Também já li pessoas dando a entender que a obra do Tarantino se trata de um ‘elogio à vingança’. Não sei se concordo. Não vejo Bastardos Inglórios como um filme que defende qualquer tipo de ideal do tipo ‘ah, os alemães mereceram mesmo’. Pra mim não é sobre isso. Pra mim é muito mais raso. Vingança é vingança, violência é violência. A diferença do lado A pro lado B é apenas circunstancial.

Não acho que seja um filme sobre a banalização da vingança. Também não vejo como um filme que a condena. É apenas um retrato, a vingança enquanto atividade humana. Nenhuma outra estrutura. Cara, eu sou super moralista. Adoro ver moral em tudo. Mas acho que a amoralidade do Tarantino tem seu valor. Leva a um nível de abstração necessário.

Agora, a vingança do diretor na hora que o Hitler morre! Meu Deus, isso foi sen-sa-cio-nal. Pra mim foi algo do tipo ‘Vou me vingar contra o sistema porque ele nos empurra goela abaixo que a gente tem que ter pena dos judeus e crucificar o Hitler. Vou me vingar criando um universo paralelo em que os judeus é que são os filhos da puta!’. Gênio. Aqui não consigo deixar meu lado moralista de lado. Pra mim é óbvio que a morte do Hitler significa ‘Injustiça é injustiça, não importa o lado e, portanto, as justificativas’. Mas é claro que o filme não é sobre isso. Esse é um clichê que está lá de adorno, assim como os estereótipos das personagens: é só pra lidar melhor com o público.

E eu acho que era basicamente isso o que eu queria comentar. O Tarantino é diferente porque ele consegue, através dos seus exageros e idiossincrasias, construir algo que não está na esfera do ‘certo e errado’ ou na edificação do caráter, sem ter também que apelar pra uma estrutura anti-heroína, de quebra de paradigmas, etc. É tudo sobre ser virtuosíssimo (em termos de narrativa e de técnica), envolvente e raso. Eu acho isso incrível e extremamente relevante. Não é uma questão de ‘apenas estar se referindo a outras obras’, como dizem alguns. Não, o Tarantino conseguiu espremer novidades de dentro da cultura pop. Merece todo o reconhecimento que ele tem.

Só continuo achando que os elementos compositivos dele não são aqueles que me agradam mais.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Dude, we are Lost

- - - de Rafael, para o na Vitrine.



Não quero deixar de falar de Lost, apesar de já ter passado a minha vida falando que esse seriado não presta. Eu sei que ia ficar mais bonito para o meu lado se eu simplesmente encolhesse o rabo e fingisse que não é comigo. Mas enfim, vivemos numa democracia e eu vou fazer uso da minha liberdade de expressão pra ser chato mesmo. Falei.

Acontece que eu também fiquei impressionado com Lost naquela longínqua primeira temporada. É um seriado impressionante mesmo, não vou negar. Mas aí foi ficando chato, chato, até que lá pela quinta temporada (eu = lerdo) percebi que não dava mais e larguei. Na sexta, só faltava mais uma temporada para o fim e decidi que eu poderia dar uma chance, afinal não tinha perdido tanta coisa assim.

E aí, mesmo sem grandes expectativas, ainda assim consegui me decepcionar com o final. E foi uma puta decepção.

Pra mim, Lost tem três problemas principais:

1. Personagens chatos. Ok, isso é completamente pessoal. É só porque é impressionante como era só eu começar a gostar de alguém pra ele morrer, sumir, ficar chato... Por outro lado, tive que aturar o INSUPORTÁVEL do Jack por 6 longas temporadas.

2. Texto impressionante, como eu já disse. Impressionante no sentido de contar com inúmeras técnicas de narrativa pra te prender: muito mistério, muito suspense, muita trama emaranhada, muito personagem... e aí de repente você percebe que isso tudo só serve pra desviar sua atenção do fato principal: Lost não tem nada de mais. É uma narrativa muito dinâmica, mas simplesmente para te fazer de bobo. Não gosto que me tratem assim. Simplesmente.

3. Cientificismo barato e fajuto. Usar eletromagnetismo como simbologia para fenômenos inexplicáveis morreu no século IX. Energia “aparece” e “some” na presença de campos eletromagnéticos, mas hoje já se conhece equações de Maxwell e vetor de Poynting, e aquilo o que parecia bruxaria no passado é muito bem compreendido hoje. Aliás, tem muito físico que diz que o eletromagnetismo é o modelo mais coerente da física moderna. Fora que me inventam um físico que estuda ratos para justificar viagem no tempo. Sério. Nem sou contra avacalhar a ciência pra criar ficção científica, não. Coloquem barulhos no espaço, viagem ao centro de buracos negros, mas, pelo amor de Deus, não usem superstições do passado e estereótipos canhestros porque isso é piegas demais.

Mas aí, ok, você abstrai isso tudo e enfrenta a última temporada para encontrar um final mais sem história do que nunca.

[SPOILER]

A única explicação que se preocupam em te dar é que o Jack morreu e está numa espécie de “realidade paralela”, se preparando para “seguir seu caminho”. Ah vá! Esse spoiler já rolava desde a 2ª temporada! Tudo bem, antes acreditava-se que a ilha seria o purgatório, etc. Mas a impressão que dá é que o spoiler estava certo e os autores resolveram dar uma pequena acochambrada no final, para não serem tão óbvios. Aí, pra escapar da obviedade, colocam o Jack-espírito numa capela em busca de uma luz no final do corredor conversando com o pai morto chamado Christian Shephard! U-A-U. Mas não sem antes apelar forte para o emocional do espectador juntando meigamente todos os casais no além. E olha, eu sou super manteiga derretida. Choro fácil com essas coisas (e confesso que chorei com Claire e Charlie). Mas depois do final eu só lembro de mim pensando: “que merda, me fizeram de bobo de novo!”. Enfim.

[/SPOILER]

Em busca de algum conforto, fui procurar na internet UMA CRÍTICA QUE SEJA falando mal desse final horroroso e só achei pessoas emocionadíssimas, falando de como Lost é sobre fé e esperança. E que a ilha não é importante: o importante são as relações humanas, etc. Olha, pode até ser. Até concordo, em certo ponto, com isso. Mas isso só me mostrou como esse final desviou completamente a atenção dos espectadores daquilo que Lost tem de melhor. E, se prepare, leitor, porque no próximo parágrafo eu vou começar a falar bem de Lost. Guarde esse momento porque não deve acontecer de novo.

Na minha opinião, Lost conseguiu um feito impressionante: ele conseguiu mostrar, da forma mais didática que eu já presenciei, como o ser humano consegue ser babaca! Sem sarcasmo, juro. Você pensa em todas aquelas mortes, todas aquelas situações, todas as mentiras, as vinganças, as traições, e pensa: pra que? Qual o propósito de tanto sofrimento? Busca da sobrevivência? Não, isso só era o objetivo principal nas primeiras temporadas. Truques do destino? Não, não teve destino agindo. Quem agiu durante o seriado inteiro foram os próprios personagens. Se você pensar bem, a maioria daquelas criaturas conseguiu de forma magistral foder a própria vida de um tanto, mas de um tanto! Todo mundo pagando de espertalhão, agindo baseado em crendices infantis, acreditando em um propósito maior. E olha só: não tem propósito maior. Sério, isso é genial. É exatamente o que as sociedades têm feito aqui no mundo real: se digladiarem sem motivo. Lost é uma rede de intrigas que poderiam simplesmente não existir. Não soa familiar?

Aliás, a inversão de valores, tão característica do mundo em que vivemos, marcou presença constante no seriado. Olha a história do Jacob e do irmão. O irmão dele simplesmente teve a coragem de olhar para mãe-adotiva-assassina e falar: “eu não acredito em você. Tchau”. E aí isso faz dele um monstro! Enquanto o Jacob vira um herói por não ter feito absolutamente nada.

Você vê relações de poder abusivas. Você vê arrogância para justificar ignorância. Você vê extremismos de cunho científico e religioso. Você vê individualismo exacerbado. O que, dos defeitos da nossa civilização, não está representado em Lost?

Tem gente que deve estar pensando que eu não gostei do final de Lost porque eu não gosto de final feliz. A questão é, será que aquele final, só porque foi bonitinho, foi realmente um final feliz?

domingo, 9 de agosto de 2009

The Imaginarium of Doctor Parnassus

- - - de Renata_, para o na Vitrine.




@ Yahoo! Video


Esse filme teve seu roteiro original alterado depois do falecimento de seu ator principal, Heath Ledger. Para que a produção continuasse, três atores foram especialmente convidados para substituí-lo: Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel. O diretor é Terry Gilliam, o mesmo de Monty Phyton.

Heath, Johnny, Jude e Colin interpretam Tony, um membro da companhia de teatro do Dr. Parnassus. Tony tem de salvar Valentina, a filha do doutor, do demônio com quem Parnassus fez um acordo séculos atrás.

Sem data de estréia no Brasil. Mas em outubro no Reino Unido. Provavelmente nas férias aqui...

Comentário feliz: parece ser tãooooo legaaaaal! *.*

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Harry Potter and The Half Blood Prince


- - - de Renata_, para o na Vitrine.



Harry Potter and The Half Blood Prince. Um filme de esforços. Um bom filme, bem feito, com linguagem rica e bela. Mas definitivamente, abarrotado de esforços.

Esforço número 1: fazer da personagem Gina Weasley uma garota bonita, interessante, notável, sexy, divertida, etc. Ela aparecia em qualquer cena possível de se aparecer, fazendo comentários espirituosos, colocando moral na galera do quadribol, sendo a primeira a perceber a presença de Harry na toca, amarrando cardarços alheios (lição para as solteiras de plantão: mostre-se disposta abaixar-se aos pés do homem que você ama), fazendo uma brincadeira sensual de esconde-esconde em um salão escuro e por aí vai. Aliás, foi um esforço tão óbvio que criaram uma cena especial de Natal, onde a toca é destruída por dois comensais desocupados, só para ela e Harry fortaleceram seu laço de amor eterno, um tentado salvar o outro.

Esforço número 2: Como o livro não possue tantas cenas de ação, e sim mais diálogo, para manter a atenção do pública viva, HBP tornou-se o filme mais engraçado até agora. Onde era possível inserir uma piada, eles nao hesitavam. O que não é necessariamente uma coisa ruim, porque as piadas possuiam certa qualidade e os atores as desenvolveram bem. Oh, well.

Esforço número 3: Manter Harry e Draco nos arcos principais da história. Foi na verdade, um filme sobre os dois, cada um com seu sofrimento e problemas. Hermione só aparecia para chorar, Ron só aparecia, para ahm, ser o Ron. Draco por sua vez, se arrastava pelos cantos do castelo, a mente em turbilhão. Achei que Tom Felton desenvolveu muito bem essa emice, até mandei um recadinho no Twitter para ele falando isso, entre os outros duzentos milhões que ele deve ter recebido desde a estréia do filme. Daniel Radcliff, ahm, fez o de sempre.

Agora, o que me incomodou, verdadeiramente. Primeiro, aquele Dumbledore obtuso que foi criado no filme. Nos livros, Dumbledore é nossa figura de estabilidade, serenidade, nosso porto seguro. Nos filmes, temos aquela criatura epilética e irritante. Eu o detesto, profundamente. Aí o que acontece... No livro, a cena da bebida da poção para se obter a Horcrux causa grande desespero para os leitores, porque Dumbledore mostra-se pela primeira vez, vulnerável e fraco. No filme, daquele ser patético, é mesmo de ser esperar um atitude assim. Uma cena que deveria causar agonia, desconforto e até desespero, tornou-se fraca, plana, totalmente sem-graça.

Outro incômodo meu: todo o conceito e origem das Horcruxs ficaram jogados e mal-explicados. Para quem não leu os livros, pode rolar uma dúvida que provalvemente será explicada por aqueles que leram. É normalmente assim que acontece.

Cortes de cenas dos livros são normais, necessários. Mas eu achei uma pena retirarem as partes que explicam a origem da famíla de Voldemort, como ele foi concebido, porque ele morava em um orfanato, e por aí vai. Para mim, é um dos detalhes mais interessantes da série toda e desvalorizá-los assim é uma verdadeira perda. É uma parte muito rica dos livros.

Gostaria de destacar minha predileção pela cena em que Harry bebe a poção Felix Felicis e participa do velório da aranha gigante. Para mim, foi a mais bem feita e bonita. Uma música ao fundo, Slughorn declamando belas palavras e Daniel Radcliffe em sua melhor interpretação de um usuário de drogas psicotrópicas. Na verdade, acho que ele não interpretou de todo, alguma experiência própria está estampada ali, no olhar desencontrado de Harry. Genial.

Menção honrosa para Lilá/Lavender Brown e seus sábios ensinamentos de como perder um homem, Luna Lovegood ao resgate, em seu vestido feito com os restos daquela porcaria que Hermione usou no baile do 4o filme, Bellatrix e seu lema "eu quero ver o oco" (quem não entendeu, me pergunte depois), mamãe Narcissa e seu cabelo de Pepé Le Pew, e ah, Snape. Maravilhoso, profundo, misterioso, genial, Snape.

Há quem reclame das cenas finais. O funeral teria sido interessante de se ver, figuras importantes dos livros, mas não foi uma perda total. Mas Snape gritando "DON'T CALL ME COWARD, POTTER!" com o fogo da casa de Hagrid como fundo também fez falta, é um momento de forte intensidade no livro.

No geral, foi um filme bom. Não foi o melhor, muito menos o pior.

Na verdade, aumentou minha vontade para os próximos dois. Esses sim, quero só ver como vão ficar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Documentário: Pro dia nascer feliz

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


"Às vezes eu acho que é um pouco violento esse jeito como se vive: as pessoas têm que deixar de lado aquilo em que acreditam para se conservar vivas."
MAYSA, 16 anos
"Eu tenho medo de coisas, assim, totalmente complexas e grandiosas, como o medo da morte, o que acontece depois da vida, quem sou eu, o que vai acontecer comigo."
THAIS, 15 anos
"Eu deveria ter uma péssima impressão da vida se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver."
VALÉRIA, 16 anos


Com seu estilo solto, uma visão aparentemente imparcial e depoimentos com assuntos para lá de aleatórios, o documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim, constitui-se como um verdadeiro vitral, onde a realidade da educação brasileira é mostrada tão íntima quanto seria possível. Na verdade, a coerência que adquire decorre principalmente de sua não objetividade e, assim, fica clara a visão que a pedagogia vem disseminando, de que o momento escolar não é parte da vida, mas a própria vida de milhares de estudantes.

O ponto de apoio estrutural da narração é o famoso conflito educação pública/educação particular. São três os principais estabelecimentos de ensino que pude distinguir claramente como locus de pesquisa: uma escola pública de condições precárias, em uma das cidades mais miseráveis do país; uma escola pública de alta qualidade, equiparável em resultados com escolas da rede particular; e, por fim, uma escola particular de classe alta na grande São Paulo. Nestes contextos contrastantes, as câmeras nos levam pela vida dos estudantes a eles submetidos, pelo trajeto casa-escola, escola-casa de crianças reféns da rotina, pelos sonhos e discursos destes jovens, pelos medos, inseguranças, por suas conquistas e decepções.

A escola nem sempre está em primeiro plano nas problematizações postas, mas está sempre por ali, mesmo que em segundo plano, atestando sua influência onipresente. E o que se pode perceber facilmente é que, apesar de sua pretensão, a escola não dá segurança de futuro para nenhum dos jovens entrevistados. Não é que sua influência seja sempre atacada e estigmatizada. Não, em muitos momentos, é possível mesmo identificar processos em que a escola se torna protagonista, trazendo contato pessoal e metas, dando significado à vida de seus discentes. No entanto, ela parece uma instituição sempre deslocada, sempre artificial, levando o aluno para universos que não são seus e que talvez nem lhe interessem.

A complexidade de articulações é ainda evidenciada quando é dada voz também aos professores, tantas vezes recriminados e apresentados de forma vilanesca. Não é possível, é claro, retirar das mãos destes profissionais a responsabilidade por seus atos – responsabilidade esta muito grande, por sinal. Mas também não se pode negar a desvalorização injusta e a perda total de dignidade deste setor tão importante numa sociedade como esta em que vivemos.

Por fim, são o foco abrangente e a pluralidade de situações que conferem a este documentário a notoriedade que merece. É quando a escola é mostrada em sua essência mais humana, mais encrustada na vida de tanta gente ao mesmo tempo, mostrada mesma como reflexo e simultaneamente causa de uma sociedade desigual e cruel, mascarada e hipócrita; é apenas assim que se pode imaginar (porque ainda assim, definir me parece impossível) a abrangência deste poder instituído, a força deste personagem tão presente cultural e socialmente ao longo da história.

É assim que crítica e elogio foram atingidos com igual sutileza e importância.


(Essa é uma resenha que fiz ano passado, para a aula de didática. Reli agora, depois de uma conversa breve sobre o filme com a Marina, e achei propício. Se puderem, assistam.)

quinta-feira, 12 de março de 2009

As Questões de Watchmen

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

É comum dizer que um bom texto, seja um livro, um filme ou uma HQ, é bom quando nos põe a pensar, suscita dúvidas e questões pertinentes e, de certa forma, apura nossa visão de mundo. A obra de Alan Moore e Dave Gibbons sem dúvida se enquadra nesse perfil. Aqui, pretendo escrever um pouco sobre minha visão particular de quais são essas questões, e como compreender Watchmen, filme e HQ. Mais uma vez, não vou me preocupar em fazer uma apurada análise técnica. Escrevo para um público que tenha conhecimento do texto, pois podem haver spoilers (não muitos). Acredito que essa análise seja ainda mais valiosa para aqueles que apenas assistiram ao filme. Os que leram a HQ provavelmente já se confrontaram explicitamente com grande parte das questões abarcadas. No entanto, um releitura sempre ajuda a organizar o pensamento e consolidar nossas opiniões.

O principal objetivo de Watchmen chega a ser óbvio: a desconstrução do mito do super-herói, trazendo essas lendárias figuras para o mundo real. Não exatamente para o nosso mundo, mas para uma realidade paralela semelhante, diferindo apenas pelas consequências trazidas pela existência desses heróis. Tradicionalmente, o universo dos super-homens é o ambiente de personalidades linearizáveis, onde bem e mal não se misturam. Só de olhar é possível identificar bandidos e mocinhos. Na roupagem realista que Watchmen propõe, não há espaço para tais maniqueismos. Temos personagens humanas, nem sempre boas ou más, e sim tridimensionais. A primeira questão, então, que esse tipo de contexto propõe é:

Em um mundo como o nosso, qual seria o verdadeiro papel de um super-herói? Como lutar contra o mal quando ele não está mais tão convenientemente caracterizado por uma figura central, arqui-inimiga?

Os diferentes mascarados têm particulares respostas para essa questão. Mas não vou começar por essa discussão. Ainda estamos começando.

Antes de mais nada, é preciso se perguntar:

Por que no século XX* precisamos de super-heróis?

Bom, Super Homem, Capitão América e companhia nasceram do interesse político de vencer ideologicamente os soviéticos. Inspirados, então, no sonho americano de Justiça e Liberdade, divulgados por esses metalinguísticos personagens, surgem os “watchmen” (vigilantes), os combatentes do mal transportados para um mundo menos preto-e-branco, prontos para enfrentar o mal que existe dentro da própria América. A compreensão fundamental aqui é a de que nem o sistema político apregoado como o correto, a Democracia e as Leis, nem a Religião e nem o setor privado, e nem nada foi capaz de vencer misérias, desigualdades, preconceitos e violência. A sociedade da forma como ela foi concebida é simplesmente ineficiente no combate aos problemas sociais reais que maltratam principalmente, mas não só, as minorias (minorias que, em números, não têm nada de minoria). Por isso a crença em seres superiores designados para resolver os problemas sociais que os poderosos (preocupados com políticas publicitárias) não se mobilizam para tratar parece plausível em uma realidade caótica. Por isso a necessidade dos “watchmen”.

Mas, se por um lado, os heróis parecem necessários, por outro, seria absurdo e incoerente designar pessoas, seres humanos, para esse tipo de serviço. E o que aconteceria se pessoas comuns se dessem a esse trabalho? A resposta de Moore para essa questão é o próprio cenário de Watchmen, realista por necessidade de ser coerente. E o é. A genialidade do autor é justamente conseguir apresentar esse cenário como uma realidade plausível. Para os combatentes, motivos sobram: uns lutam por suas ideologias, outros são patrocinados por empresas, outros buscam fama e prestígio, a maioria apenas não bate muito bem da cabeça. Mas, que benefícios reais esses heróis humanos poderiam trazer à sociedade? Mesmo que eles tenham notáveis habilidades marciais, mesmo que eles tenham a tecnologia ao seu lado... Voltando ao início, como combater o mal?

Os vigilantes e suas batalhas pessoais

À primeira vista, o entre aspas “protagonista” Rorschach não parece lembrar nem de longe a algum herói dos antigos quadrinhos. No entanto, num universo menos complexo do que aquele em que vive o vigilante, teríamos na figura de Rorschach um super-homem fidedigno: em um mundo com a dicotomia bem-mal aparente e exposta, teríamos um personagem de código moral claro e inabalável, pronto para banir com as próprias mãos os indivíduos podres da sociedade. A visão de Rorschach é a de que não existem desculpas para os desvios de comportamento. Por sua história de vida, ele poderia ser o primeiro a se esconder atrás da máscara de vítima, como desculpa para qualquer mal que porventura viesse a cometer. No entanto, não é isso o que esconde a máscara de Rorschach. Nada, na forma como ele enxerga o mundo, lhe dá o direito de ser fraco. Ele faz o que deve ser feito (da forma como ele entende que deve). Ele não se dobra nem mesmo ao Estado, agindo na ilegalidade se preciso, por que acredita que sua missão precisa ser cumprida. Heroísmo? Obviamente! Dos melhores. Não agiria o Super Homem da mesma maneira? A impiedade e integridade de Rorschach aos seus próprios códigos é o que faz dele o mais heroico dos vigilantes. No entanto, colocando-nos frente a frente com nossas próprias fraquezas, esse personagem nos faz rever o conceito de Justiça. Qual o sentido de um código tão rigoroso quando todos somos mais ou menos fracos? Talvez seja o medo de aceitar nosso lado sombrio que nos impeça de compreender Rorschach em seu heroísmo, e perceber que todas as suas atitudes atrozes são motivadas pela concepção de justiça do mundo ocidental.

O que incomoda em Rorschach não é o fato de ele não ser o herói tradicional, mas justamente o fato de ele ser exatamente o que entendemos por herói. É claro que elementos compositivos importantes – sua aparência e seu total desprezo pela raça humana – fazem com que antipatias nasçam mais facilmente. Mas o importante é perceber que mesmo um Rorschach atraente e cheio de amor pra dar ainda cometeria erros terríveis, porque ele age centrado em suas próprias verdades e as leva adiante custe o que custar. Ninguém é dono da verdade, e um herói que faça sua própria moral valer, a despeito de outros, não passa de um intolerante e egocêntrico. Essa intolerância, no entanto, é a essência do herói, e a personalidade de Rorschach é uma peça fundamental no quebra-cabeça da trama.

E o que dizer do Comediante? O Comediante é um pacifista do plano psicológico. Ele, ao contrário de Rorschach e da maioria dos outros vigilantes, aceita o mal como parte integrante da natureza humana. Por isso, ele prefere não lutar, porque lutar contra o mal é lutar contra si mesmo. Ao contrário, ele se junta ao inimigo, fazendo da crueldade motivo de piada. Ele se permite atrocidades para se sentir em paz com sua natureza humana. O Comediante é o perfeito anti-herói, que acha uma piada a luta dos outros vigilantes.

Adrian Veidt, o Ozymandias, em certo momento da narrativa percebe o tom das piadas do Comediante, e atenta para o fato de o mal estar espalhado em todas as criaturas. Até então, ele era como os outros, engajado como Rorschach, mas capaz de enxergar a complexidade comportamental humana. Em nenhum momento, ele abandona a luta contra o mal, mas, ao se dar conta da natureza intrínseca da maldade, graças ao Comediante, Ozymandias percebe que seria preciso abandonar velhos princípios. A guerra contra o mal é uma guerra desleal e só pode ser vencida abandonando a visão romantizada de moral do super-herói. Adrian, o homem dito mais inteligente da Terra, é o primeiro a perceber que o herói humano seria incapaz de vencer na luta contra o mal, porque o mal não respeita nenhum código moral.

Impactos na Sociedade


Do ponto de vista social, a existência dos Homens Minuto (a primeira geração de vigilantes) é uma anomalia política sem tamanho. São pessoas que agem às escondidas, acima da lei e desrespeitando todas as conquistas democráticas históricas, ridicularizando o governo e a segurança nacional. No entanto, contando com o apoio da sociedade, são rapidamente incorporados ao sistema econômico, tornando-se celebridades e armas poderosas de publicidade. Espectral e Dollar Bill são perfeitos exemplos dessa nova tendência.

Não seria preciso nenhum grande evento para deixar claro que esses heróis eram, na verdade, grandes equívocos coletivos, motivados por ideologias artificiais. Logo começam os abusos e a dificuldade de identificar os homens por trás das máscaras cria uma casta social de irresponsabilizáveis; tiranos e nazistas fora da política. Mesmo que a maioria deles não agisse com crueldade, apenas a arbitrariedade que tinham poder para exercer já era suficiente para ameaçar a ordem social.

Super Poderes


A discussão precedente ganha nova dimensão com o surgimento do Dr. Manhattan. A pergunta agora é: e se um super-herói com super poderes realmente existisse? Alan Moore responde com outra pergunta: e se essa espécie de Super Homem fosse, da mesma forma como foram os Homens Minuto, incorporado pelo sistema político-econômico? Uma criatura super poderosa poderia, em teoria, funcionar como arma em uma guerra política, mas não na guerra contra o mal, porque, nas palavras de Jon, ela não possuiria o poder de “alterar a natureza humana”. É a visão do Comediante voltando à tona. A guerra contra o mal é uma guerra contra os homens. Apenas a humanidade poderia se salvar de si mesma.

É por isso que, na HQ, quem salva a Terra de uma 3ª Guerra Mundial é um herói humano, e não o Dr. Manhattan.

Além disso, fica clara na HQ a visão de Moore de que, quanto mais poder a humanidade detém, mais iminentes tornam-se os conflitos. Foi a existência do Dr. Manhattan que deixou a Terra à beira da guerra. O medo que Jon causava nos soviéticos era tamanho que não descartava-se a possibilidade de um ataque suicida. Fica no ar mais uma pergunta:

Que poderes um super-herói precisaria ter para garantir a paz? Mesmo no plano metafísico, esse perfil de herói existiria?

Rorschach versus Ozymandias

Todas essas perguntas não ficam sem solução. Ozymandias, com seu plano megalomaníaco e por métodos questionáveis consegue unir duas nações inimigas e acabar com a ameaça da guerra. Essa solução, no entanto, está longe de ser conclusiva. Personagens morrem, mas não ideologias. A breve mas suficiente discussão entre Ozymandias e Rorschach no final da trama é ainda repleta de quesões a serem pensadas. A forma como Ozymandias conduz os fatos baseia-se numa visão maquiavélica que não raro culminou em grandes injustiças históricas. Em verdade, apesar da Terra ter sido momentaneamente “salva”, não há garantias de que o mundo será um lugar melhor dali para frente. Aliás, não há sequer garantia de que ela vá durar mais dez anos. Terão, então, valido a pena todas as mentiras, todas as mortes, todas as arbitrariedades? Não estará a visão de Ozymandias apenas propagando os mesmos erros e preconceitos que deram origens à desigualdade e à guerra? O feito é notável, mas não haveria outra forma? A pergunta, na verdade, é secular: os fins justificam os meios?

A visão heróica e romântica de Rorschach é terminantemente contra essa “salvação” sangrenta e mentirosa; “sem acordos”, ele diz. Mas, estaria errado o seu ponto de vista apenas por parecer utópico? Afinal, quantas vezes ao longo da história os grades impasses tentaram ser resolvidos de forma honesta? O problema político de ações como o de Ozymandias é que, quase sempre, busca-se por meios imorais alcançar interesses particulares de poderosos. O mesmo não pode ser dito de Adrian Veidt, contudo, colocando na forma de outra pergunta secular: um erro justifica outro? É uma imagem forte quando Rorschach refere-se à morte como “mais um cadáver em sua fundação”. Talvez ele esteja propondo que um mundo melhor não se construa por grandes revoluções, mas por atitudes íntegras. Os fins não podem justificar os meios, porque todo final é uma ilusão. O futuro perfeito de Veidt é uma ilusão, e o que ele fez simplesmente não está correto.

Tantas questões filosóficas e existenciais em apenas 12 capítulos é realmente um mérito à parte, e, apesar de haver falhas, tanto no filme quanto na HQ, é mais que merecido o reconhecimento de Watchmen como uma grande obra, um marco na história dos quadrinhos. Àqueles que assistiram o filme, recomendo fortemente ler também a série impressa. A ambientação é feita de forma espetacular e essas questões todas são tratadas com muito mais cuidado que na versão cinematográfica, que, apesar de ser uma excelente adaptação do enredo de Watchmen, perde em profundidade de interpretação.



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* Período da trama.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Slumdog Millionaire


- - - de Renata_, para o na Vitrine.


Então, o vencendor do oscar 2009.

Bonito? Sim.
Comovente? Sim.
Envolvente? Sim.
Bem feito? Sim.


Surpreendente? Não.
Inovador? Não.

Tinha um comichão me incomodando durante todo o filme. Um comichão que me dizia: você já viu/leu/ouviu essa história antes. E é óbvio que você sabe o final.

Não é surpresa que Slumdog ganhou o prêmio de melhor filme. Porque ele não ganharia? Ele possui a fórmula exata, que funciona entre nós mortais, por séculos a fio.

É muito simples: Crie um herói, tão nobre quanto Ivanhoé, tão apaixonado quanto Romeu, com a infância tão trágica quanto... sei lá, a do menino do "Parada 174", uma heróina tão bela e pura quanto qualquer princesa adormecida e adicione o destino determinado a consagrá-los com um feliz para sempre. Gente, que membros da Academia não derretem diante disso?

Sabem o que vi na tela? Alladin do século XXI. E Alladin da Disney mesmo, porque o conto original tem mais suor e sangue. Não me levem a mal, eu AMO Alladin, mas com a plena noção de que entre a Moreninha e a Jasmim não há muita diferença, além de alguns miolos (para a Jasmim, obviamente) e a própria etnia das duas.
Jamal-Alladin "ladrão lalau, eu não sou não! É que na realidade, eu sou só pobre. Alladin... Quem há de dizer, que há muito mais, em mimmmmm!" passou por muitas dificuldade para chegar à cena inicial do filme. Cada momento de sua vida é uma "denúncia social" das violações dos direitos humanos, ambientais, sociais, animais, científicos, sociológicos, antropológicos e tudo mais que é possível de ser violado.
Alladin conhece Jasmim, Alladin não pode ter Jasmim. - Jamal conhece Latika, Jamal não pode ter Latika.
Alladin acha a lâmpada - Jamal entra no show do milhão indiano.
Alladin perde a lâmpada para Jafar - Duvidam da capacidade de Jamal de estar ganhando o jogo honestamente.
Alladin com a ajuda do bem, vence Jafar, liberta o gênio e fica com Jasmim. Eventualmente Alladin se muda para o palácio assim como também eventualmente se tornará sultão, deixando toda uma vida de pobreza e sofrimento para trás. Living Happily ever after.
Jamal não se sai muito diferente.

Não estou exigindo quedas de sistemas, nem quebra das castas, nem que o governo indiano seja derrubado. Muito menos desejo que Jamal tivesse perdido na pergunta final, paraque o fim fosse mais real. Também não estou desvalorizando o tom narrativo do filme. Na verdade, não estou aqui para criticar Slumdog Millionaire.

Só quero deixar um alerta para mantermos nossos olhos abertos. Sentir alívio porque Jamal e Latika nunca mais vão passar fome não é catarse, é alienação.

E a música final e ganhadora do oscar também (que eu gostei e até baixei), poderia muito bem ser substituída por "Um Mundo Ideal":

Aladdin: Um mundo ideal
Jasmin: Um mundo ideal
Aladdin: Que alguém nos deu
Jasmin: Que alguém nos deu
Aladdin: Feito pra nós
Jasmin: Somente nós
Aladdin & Jasmin: Só seu e meu.


Exatamente, meu casal preferido da Disney: Só de vocês dois.


Cada prêmio honestamente merecido. Fotografia, trilha sonora, etc, etc. Podem ver sem medo. Recomendando para sair feliz do cinema.

E eu tenho problemas, porque eu achei o ator do Jamal sexy. Não me perguntem porque. E imaginem meu susto ao constatar que ele será o ZUKO na versão cinematográfica de AVATAR.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Parceria de Jack White com Alicia Keys ganha clipe

Foi lançado oficialmente nesta terça-feira, 30, o clipe de "Another Way to Die", música feita em parceria por Jack White (do White Stripes) e a cantora Alicia Keys para a trilha sonora de Quantum of Solace, o vigésimo segundo filme do agente britânico 007 (mais uma vez vivido por Daniel Craig).

A canção já havia vazado na internet em áudio, retirada de uma propaganda da Coca-Cola Zero norte-americana. O disco com a trilha sonora completa do filme será lançado no final de outubro, vinte dias antes da estréia do filme no Brasil, em 14 de novembro.
(FONTE: http://www.rollingstone.com.br, setembro de 2008)


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Blog do Saramago

- - - de Rafael, para o na Vitrine.



Só para compartilhar. Comecei a lê-lo esses dias:

O Caderno de Saramago

na Vitrine.