domingo, 9 de agosto de 2009

The Imaginarium of Doctor Parnassus

- - - de Renata_, para o na Vitrine.




@ Yahoo! Video


Esse filme teve seu roteiro original alterado depois do falecimento de seu ator principal, Heath Ledger. Para que a produção continuasse, três atores foram especialmente convidados para substituí-lo: Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel. O diretor é Terry Gilliam, o mesmo de Monty Phyton.

Heath, Johnny, Jude e Colin interpretam Tony, um membro da companhia de teatro do Dr. Parnassus. Tony tem de salvar Valentina, a filha do doutor, do demônio com quem Parnassus fez um acordo séculos atrás.

Sem data de estréia no Brasil. Mas em outubro no Reino Unido. Provavelmente nas férias aqui...

Comentário feliz: parece ser tãooooo legaaaaal! *.*

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Harry Potter and The Half Blood Prince


- - - de Renata_, para o na Vitrine.



Harry Potter and The Half Blood Prince. Um filme de esforços. Um bom filme, bem feito, com linguagem rica e bela. Mas definitivamente, abarrotado de esforços.

Esforço número 1: fazer da personagem Gina Weasley uma garota bonita, interessante, notável, sexy, divertida, etc. Ela aparecia em qualquer cena possível de se aparecer, fazendo comentários espirituosos, colocando moral na galera do quadribol, sendo a primeira a perceber a presença de Harry na toca, amarrando cardarços alheios (lição para as solteiras de plantão: mostre-se disposta abaixar-se aos pés do homem que você ama), fazendo uma brincadeira sensual de esconde-esconde em um salão escuro e por aí vai. Aliás, foi um esforço tão óbvio que criaram uma cena especial de Natal, onde a toca é destruída por dois comensais desocupados, só para ela e Harry fortaleceram seu laço de amor eterno, um tentado salvar o outro.

Esforço número 2: Como o livro não possue tantas cenas de ação, e sim mais diálogo, para manter a atenção do pública viva, HBP tornou-se o filme mais engraçado até agora. Onde era possível inserir uma piada, eles nao hesitavam. O que não é necessariamente uma coisa ruim, porque as piadas possuiam certa qualidade e os atores as desenvolveram bem. Oh, well.

Esforço número 3: Manter Harry e Draco nos arcos principais da história. Foi na verdade, um filme sobre os dois, cada um com seu sofrimento e problemas. Hermione só aparecia para chorar, Ron só aparecia, para ahm, ser o Ron. Draco por sua vez, se arrastava pelos cantos do castelo, a mente em turbilhão. Achei que Tom Felton desenvolveu muito bem essa emice, até mandei um recadinho no Twitter para ele falando isso, entre os outros duzentos milhões que ele deve ter recebido desde a estréia do filme. Daniel Radcliff, ahm, fez o de sempre.

Agora, o que me incomodou, verdadeiramente. Primeiro, aquele Dumbledore obtuso que foi criado no filme. Nos livros, Dumbledore é nossa figura de estabilidade, serenidade, nosso porto seguro. Nos filmes, temos aquela criatura epilética e irritante. Eu o detesto, profundamente. Aí o que acontece... No livro, a cena da bebida da poção para se obter a Horcrux causa grande desespero para os leitores, porque Dumbledore mostra-se pela primeira vez, vulnerável e fraco. No filme, daquele ser patético, é mesmo de ser esperar um atitude assim. Uma cena que deveria causar agonia, desconforto e até desespero, tornou-se fraca, plana, totalmente sem-graça.

Outro incômodo meu: todo o conceito e origem das Horcruxs ficaram jogados e mal-explicados. Para quem não leu os livros, pode rolar uma dúvida que provalvemente será explicada por aqueles que leram. É normalmente assim que acontece.

Cortes de cenas dos livros são normais, necessários. Mas eu achei uma pena retirarem as partes que explicam a origem da famíla de Voldemort, como ele foi concebido, porque ele morava em um orfanato, e por aí vai. Para mim, é um dos detalhes mais interessantes da série toda e desvalorizá-los assim é uma verdadeira perda. É uma parte muito rica dos livros.

Gostaria de destacar minha predileção pela cena em que Harry bebe a poção Felix Felicis e participa do velório da aranha gigante. Para mim, foi a mais bem feita e bonita. Uma música ao fundo, Slughorn declamando belas palavras e Daniel Radcliffe em sua melhor interpretação de um usuário de drogas psicotrópicas. Na verdade, acho que ele não interpretou de todo, alguma experiência própria está estampada ali, no olhar desencontrado de Harry. Genial.

Menção honrosa para Lilá/Lavender Brown e seus sábios ensinamentos de como perder um homem, Luna Lovegood ao resgate, em seu vestido feito com os restos daquela porcaria que Hermione usou no baile do 4o filme, Bellatrix e seu lema "eu quero ver o oco" (quem não entendeu, me pergunte depois), mamãe Narcissa e seu cabelo de Pepé Le Pew, e ah, Snape. Maravilhoso, profundo, misterioso, genial, Snape.

Há quem reclame das cenas finais. O funeral teria sido interessante de se ver, figuras importantes dos livros, mas não foi uma perda total. Mas Snape gritando "DON'T CALL ME COWARD, POTTER!" com o fogo da casa de Hagrid como fundo também fez falta, é um momento de forte intensidade no livro.

No geral, foi um filme bom. Não foi o melhor, muito menos o pior.

Na verdade, aumentou minha vontade para os próximos dois. Esses sim, quero só ver como vão ficar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Documentário: Pro dia nascer feliz

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


"Às vezes eu acho que é um pouco violento esse jeito como se vive: as pessoas têm que deixar de lado aquilo em que acreditam para se conservar vivas."
MAYSA, 16 anos
"Eu tenho medo de coisas, assim, totalmente complexas e grandiosas, como o medo da morte, o que acontece depois da vida, quem sou eu, o que vai acontecer comigo."
THAIS, 15 anos
"Eu deveria ter uma péssima impressão da vida se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver."
VALÉRIA, 16 anos


Com seu estilo solto, uma visão aparentemente imparcial e depoimentos com assuntos para lá de aleatórios, o documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim, constitui-se como um verdadeiro vitral, onde a realidade da educação brasileira é mostrada tão íntima quanto seria possível. Na verdade, a coerência que adquire decorre principalmente de sua não objetividade e, assim, fica clara a visão que a pedagogia vem disseminando, de que o momento escolar não é parte da vida, mas a própria vida de milhares de estudantes.

O ponto de apoio estrutural da narração é o famoso conflito educação pública/educação particular. São três os principais estabelecimentos de ensino que pude distinguir claramente como locus de pesquisa: uma escola pública de condições precárias, em uma das cidades mais miseráveis do país; uma escola pública de alta qualidade, equiparável em resultados com escolas da rede particular; e, por fim, uma escola particular de classe alta na grande São Paulo. Nestes contextos contrastantes, as câmeras nos levam pela vida dos estudantes a eles submetidos, pelo trajeto casa-escola, escola-casa de crianças reféns da rotina, pelos sonhos e discursos destes jovens, pelos medos, inseguranças, por suas conquistas e decepções.

A escola nem sempre está em primeiro plano nas problematizações postas, mas está sempre por ali, mesmo que em segundo plano, atestando sua influência onipresente. E o que se pode perceber facilmente é que, apesar de sua pretensão, a escola não dá segurança de futuro para nenhum dos jovens entrevistados. Não é que sua influência seja sempre atacada e estigmatizada. Não, em muitos momentos, é possível mesmo identificar processos em que a escola se torna protagonista, trazendo contato pessoal e metas, dando significado à vida de seus discentes. No entanto, ela parece uma instituição sempre deslocada, sempre artificial, levando o aluno para universos que não são seus e que talvez nem lhe interessem.

A complexidade de articulações é ainda evidenciada quando é dada voz também aos professores, tantas vezes recriminados e apresentados de forma vilanesca. Não é possível, é claro, retirar das mãos destes profissionais a responsabilidade por seus atos – responsabilidade esta muito grande, por sinal. Mas também não se pode negar a desvalorização injusta e a perda total de dignidade deste setor tão importante numa sociedade como esta em que vivemos.

Por fim, são o foco abrangente e a pluralidade de situações que conferem a este documentário a notoriedade que merece. É quando a escola é mostrada em sua essência mais humana, mais encrustada na vida de tanta gente ao mesmo tempo, mostrada mesma como reflexo e simultaneamente causa de uma sociedade desigual e cruel, mascarada e hipócrita; é apenas assim que se pode imaginar (porque ainda assim, definir me parece impossível) a abrangência deste poder instituído, a força deste personagem tão presente cultural e socialmente ao longo da história.

É assim que crítica e elogio foram atingidos com igual sutileza e importância.


(Essa é uma resenha que fiz ano passado, para a aula de didática. Reli agora, depois de uma conversa breve sobre o filme com a Marina, e achei propício. Se puderem, assistam.)

quinta-feira, 12 de março de 2009

As Questões de Watchmen

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

É comum dizer que um bom texto, seja um livro, um filme ou uma HQ, é bom quando nos põe a pensar, suscita dúvidas e questões pertinentes e, de certa forma, apura nossa visão de mundo. A obra de Alan Moore e Dave Gibbons sem dúvida se enquadra nesse perfil. Aqui, pretendo escrever um pouco sobre minha visão particular de quais são essas questões, e como compreender Watchmen, filme e HQ. Mais uma vez, não vou me preocupar em fazer uma apurada análise técnica. Escrevo para um público que tenha conhecimento do texto, pois podem haver spoilers (não muitos). Acredito que essa análise seja ainda mais valiosa para aqueles que apenas assistiram ao filme. Os que leram a HQ provavelmente já se confrontaram explicitamente com grande parte das questões abarcadas. No entanto, um releitura sempre ajuda a organizar o pensamento e consolidar nossas opiniões.

O principal objetivo de Watchmen chega a ser óbvio: a desconstrução do mito do super-herói, trazendo essas lendárias figuras para o mundo real. Não exatamente para o nosso mundo, mas para uma realidade paralela semelhante, diferindo apenas pelas consequências trazidas pela existência desses heróis. Tradicionalmente, o universo dos super-homens é o ambiente de personalidades linearizáveis, onde bem e mal não se misturam. Só de olhar é possível identificar bandidos e mocinhos. Na roupagem realista que Watchmen propõe, não há espaço para tais maniqueismos. Temos personagens humanas, nem sempre boas ou más, e sim tridimensionais. A primeira questão, então, que esse tipo de contexto propõe é:

Em um mundo como o nosso, qual seria o verdadeiro papel de um super-herói? Como lutar contra o mal quando ele não está mais tão convenientemente caracterizado por uma figura central, arqui-inimiga?

Os diferentes mascarados têm particulares respostas para essa questão. Mas não vou começar por essa discussão. Ainda estamos começando.

Antes de mais nada, é preciso se perguntar:

Por que no século XX* precisamos de super-heróis?

Bom, Super Homem, Capitão América e companhia nasceram do interesse político de vencer ideologicamente os soviéticos. Inspirados, então, no sonho americano de Justiça e Liberdade, divulgados por esses metalinguísticos personagens, surgem os “watchmen” (vigilantes), os combatentes do mal transportados para um mundo menos preto-e-branco, prontos para enfrentar o mal que existe dentro da própria América. A compreensão fundamental aqui é a de que nem o sistema político apregoado como o correto, a Democracia e as Leis, nem a Religião e nem o setor privado, e nem nada foi capaz de vencer misérias, desigualdades, preconceitos e violência. A sociedade da forma como ela foi concebida é simplesmente ineficiente no combate aos problemas sociais reais que maltratam principalmente, mas não só, as minorias (minorias que, em números, não têm nada de minoria). Por isso a crença em seres superiores designados para resolver os problemas sociais que os poderosos (preocupados com políticas publicitárias) não se mobilizam para tratar parece plausível em uma realidade caótica. Por isso a necessidade dos “watchmen”.

Mas, se por um lado, os heróis parecem necessários, por outro, seria absurdo e incoerente designar pessoas, seres humanos, para esse tipo de serviço. E o que aconteceria se pessoas comuns se dessem a esse trabalho? A resposta de Moore para essa questão é o próprio cenário de Watchmen, realista por necessidade de ser coerente. E o é. A genialidade do autor é justamente conseguir apresentar esse cenário como uma realidade plausível. Para os combatentes, motivos sobram: uns lutam por suas ideologias, outros são patrocinados por empresas, outros buscam fama e prestígio, a maioria apenas não bate muito bem da cabeça. Mas, que benefícios reais esses heróis humanos poderiam trazer à sociedade? Mesmo que eles tenham notáveis habilidades marciais, mesmo que eles tenham a tecnologia ao seu lado... Voltando ao início, como combater o mal?

Os vigilantes e suas batalhas pessoais

À primeira vista, o entre aspas “protagonista” Rorschach não parece lembrar nem de longe a algum herói dos antigos quadrinhos. No entanto, num universo menos complexo do que aquele em que vive o vigilante, teríamos na figura de Rorschach um super-homem fidedigno: em um mundo com a dicotomia bem-mal aparente e exposta, teríamos um personagem de código moral claro e inabalável, pronto para banir com as próprias mãos os indivíduos podres da sociedade. A visão de Rorschach é a de que não existem desculpas para os desvios de comportamento. Por sua história de vida, ele poderia ser o primeiro a se esconder atrás da máscara de vítima, como desculpa para qualquer mal que porventura viesse a cometer. No entanto, não é isso o que esconde a máscara de Rorschach. Nada, na forma como ele enxerga o mundo, lhe dá o direito de ser fraco. Ele faz o que deve ser feito (da forma como ele entende que deve). Ele não se dobra nem mesmo ao Estado, agindo na ilegalidade se preciso, por que acredita que sua missão precisa ser cumprida. Heroísmo? Obviamente! Dos melhores. Não agiria o Super Homem da mesma maneira? A impiedade e integridade de Rorschach aos seus próprios códigos é o que faz dele o mais heroico dos vigilantes. No entanto, colocando-nos frente a frente com nossas próprias fraquezas, esse personagem nos faz rever o conceito de Justiça. Qual o sentido de um código tão rigoroso quando todos somos mais ou menos fracos? Talvez seja o medo de aceitar nosso lado sombrio que nos impeça de compreender Rorschach em seu heroísmo, e perceber que todas as suas atitudes atrozes são motivadas pela concepção de justiça do mundo ocidental.

O que incomoda em Rorschach não é o fato de ele não ser o herói tradicional, mas justamente o fato de ele ser exatamente o que entendemos por herói. É claro que elementos compositivos importantes – sua aparência e seu total desprezo pela raça humana – fazem com que antipatias nasçam mais facilmente. Mas o importante é perceber que mesmo um Rorschach atraente e cheio de amor pra dar ainda cometeria erros terríveis, porque ele age centrado em suas próprias verdades e as leva adiante custe o que custar. Ninguém é dono da verdade, e um herói que faça sua própria moral valer, a despeito de outros, não passa de um intolerante e egocêntrico. Essa intolerância, no entanto, é a essência do herói, e a personalidade de Rorschach é uma peça fundamental no quebra-cabeça da trama.

E o que dizer do Comediante? O Comediante é um pacifista do plano psicológico. Ele, ao contrário de Rorschach e da maioria dos outros vigilantes, aceita o mal como parte integrante da natureza humana. Por isso, ele prefere não lutar, porque lutar contra o mal é lutar contra si mesmo. Ao contrário, ele se junta ao inimigo, fazendo da crueldade motivo de piada. Ele se permite atrocidades para se sentir em paz com sua natureza humana. O Comediante é o perfeito anti-herói, que acha uma piada a luta dos outros vigilantes.

Adrian Veidt, o Ozymandias, em certo momento da narrativa percebe o tom das piadas do Comediante, e atenta para o fato de o mal estar espalhado em todas as criaturas. Até então, ele era como os outros, engajado como Rorschach, mas capaz de enxergar a complexidade comportamental humana. Em nenhum momento, ele abandona a luta contra o mal, mas, ao se dar conta da natureza intrínseca da maldade, graças ao Comediante, Ozymandias percebe que seria preciso abandonar velhos princípios. A guerra contra o mal é uma guerra desleal e só pode ser vencida abandonando a visão romantizada de moral do super-herói. Adrian, o homem dito mais inteligente da Terra, é o primeiro a perceber que o herói humano seria incapaz de vencer na luta contra o mal, porque o mal não respeita nenhum código moral.

Impactos na Sociedade


Do ponto de vista social, a existência dos Homens Minuto (a primeira geração de vigilantes) é uma anomalia política sem tamanho. São pessoas que agem às escondidas, acima da lei e desrespeitando todas as conquistas democráticas históricas, ridicularizando o governo e a segurança nacional. No entanto, contando com o apoio da sociedade, são rapidamente incorporados ao sistema econômico, tornando-se celebridades e armas poderosas de publicidade. Espectral e Dollar Bill são perfeitos exemplos dessa nova tendência.

Não seria preciso nenhum grande evento para deixar claro que esses heróis eram, na verdade, grandes equívocos coletivos, motivados por ideologias artificiais. Logo começam os abusos e a dificuldade de identificar os homens por trás das máscaras cria uma casta social de irresponsabilizáveis; tiranos e nazistas fora da política. Mesmo que a maioria deles não agisse com crueldade, apenas a arbitrariedade que tinham poder para exercer já era suficiente para ameaçar a ordem social.

Super Poderes


A discussão precedente ganha nova dimensão com o surgimento do Dr. Manhattan. A pergunta agora é: e se um super-herói com super poderes realmente existisse? Alan Moore responde com outra pergunta: e se essa espécie de Super Homem fosse, da mesma forma como foram os Homens Minuto, incorporado pelo sistema político-econômico? Uma criatura super poderosa poderia, em teoria, funcionar como arma em uma guerra política, mas não na guerra contra o mal, porque, nas palavras de Jon, ela não possuiria o poder de “alterar a natureza humana”. É a visão do Comediante voltando à tona. A guerra contra o mal é uma guerra contra os homens. Apenas a humanidade poderia se salvar de si mesma.

É por isso que, na HQ, quem salva a Terra de uma 3ª Guerra Mundial é um herói humano, e não o Dr. Manhattan.

Além disso, fica clara na HQ a visão de Moore de que, quanto mais poder a humanidade detém, mais iminentes tornam-se os conflitos. Foi a existência do Dr. Manhattan que deixou a Terra à beira da guerra. O medo que Jon causava nos soviéticos era tamanho que não descartava-se a possibilidade de um ataque suicida. Fica no ar mais uma pergunta:

Que poderes um super-herói precisaria ter para garantir a paz? Mesmo no plano metafísico, esse perfil de herói existiria?

Rorschach versus Ozymandias

Todas essas perguntas não ficam sem solução. Ozymandias, com seu plano megalomaníaco e por métodos questionáveis consegue unir duas nações inimigas e acabar com a ameaça da guerra. Essa solução, no entanto, está longe de ser conclusiva. Personagens morrem, mas não ideologias. A breve mas suficiente discussão entre Ozymandias e Rorschach no final da trama é ainda repleta de quesões a serem pensadas. A forma como Ozymandias conduz os fatos baseia-se numa visão maquiavélica que não raro culminou em grandes injustiças históricas. Em verdade, apesar da Terra ter sido momentaneamente “salva”, não há garantias de que o mundo será um lugar melhor dali para frente. Aliás, não há sequer garantia de que ela vá durar mais dez anos. Terão, então, valido a pena todas as mentiras, todas as mortes, todas as arbitrariedades? Não estará a visão de Ozymandias apenas propagando os mesmos erros e preconceitos que deram origens à desigualdade e à guerra? O feito é notável, mas não haveria outra forma? A pergunta, na verdade, é secular: os fins justificam os meios?

A visão heróica e romântica de Rorschach é terminantemente contra essa “salvação” sangrenta e mentirosa; “sem acordos”, ele diz. Mas, estaria errado o seu ponto de vista apenas por parecer utópico? Afinal, quantas vezes ao longo da história os grades impasses tentaram ser resolvidos de forma honesta? O problema político de ações como o de Ozymandias é que, quase sempre, busca-se por meios imorais alcançar interesses particulares de poderosos. O mesmo não pode ser dito de Adrian Veidt, contudo, colocando na forma de outra pergunta secular: um erro justifica outro? É uma imagem forte quando Rorschach refere-se à morte como “mais um cadáver em sua fundação”. Talvez ele esteja propondo que um mundo melhor não se construa por grandes revoluções, mas por atitudes íntegras. Os fins não podem justificar os meios, porque todo final é uma ilusão. O futuro perfeito de Veidt é uma ilusão, e o que ele fez simplesmente não está correto.

Tantas questões filosóficas e existenciais em apenas 12 capítulos é realmente um mérito à parte, e, apesar de haver falhas, tanto no filme quanto na HQ, é mais que merecido o reconhecimento de Watchmen como uma grande obra, um marco na história dos quadrinhos. Àqueles que assistiram o filme, recomendo fortemente ler também a série impressa. A ambientação é feita de forma espetacular e essas questões todas são tratadas com muito mais cuidado que na versão cinematográfica, que, apesar de ser uma excelente adaptação do enredo de Watchmen, perde em profundidade de interpretação.



____
* Período da trama.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Slumdog Millionaire


- - - de Renata_, para o na Vitrine.


Então, o vencendor do oscar 2009.

Bonito? Sim.
Comovente? Sim.
Envolvente? Sim.
Bem feito? Sim.


Surpreendente? Não.
Inovador? Não.

Tinha um comichão me incomodando durante todo o filme. Um comichão que me dizia: você já viu/leu/ouviu essa história antes. E é óbvio que você sabe o final.

Não é surpresa que Slumdog ganhou o prêmio de melhor filme. Porque ele não ganharia? Ele possui a fórmula exata, que funciona entre nós mortais, por séculos a fio.

É muito simples: Crie um herói, tão nobre quanto Ivanhoé, tão apaixonado quanto Romeu, com a infância tão trágica quanto... sei lá, a do menino do "Parada 174", uma heróina tão bela e pura quanto qualquer princesa adormecida e adicione o destino determinado a consagrá-los com um feliz para sempre. Gente, que membros da Academia não derretem diante disso?

Sabem o que vi na tela? Alladin do século XXI. E Alladin da Disney mesmo, porque o conto original tem mais suor e sangue. Não me levem a mal, eu AMO Alladin, mas com a plena noção de que entre a Moreninha e a Jasmim não há muita diferença, além de alguns miolos (para a Jasmim, obviamente) e a própria etnia das duas.
Jamal-Alladin "ladrão lalau, eu não sou não! É que na realidade, eu sou só pobre. Alladin... Quem há de dizer, que há muito mais, em mimmmmm!" passou por muitas dificuldade para chegar à cena inicial do filme. Cada momento de sua vida é uma "denúncia social" das violações dos direitos humanos, ambientais, sociais, animais, científicos, sociológicos, antropológicos e tudo mais que é possível de ser violado.
Alladin conhece Jasmim, Alladin não pode ter Jasmim. - Jamal conhece Latika, Jamal não pode ter Latika.
Alladin acha a lâmpada - Jamal entra no show do milhão indiano.
Alladin perde a lâmpada para Jafar - Duvidam da capacidade de Jamal de estar ganhando o jogo honestamente.
Alladin com a ajuda do bem, vence Jafar, liberta o gênio e fica com Jasmim. Eventualmente Alladin se muda para o palácio assim como também eventualmente se tornará sultão, deixando toda uma vida de pobreza e sofrimento para trás. Living Happily ever after.
Jamal não se sai muito diferente.

Não estou exigindo quedas de sistemas, nem quebra das castas, nem que o governo indiano seja derrubado. Muito menos desejo que Jamal tivesse perdido na pergunta final, paraque o fim fosse mais real. Também não estou desvalorizando o tom narrativo do filme. Na verdade, não estou aqui para criticar Slumdog Millionaire.

Só quero deixar um alerta para mantermos nossos olhos abertos. Sentir alívio porque Jamal e Latika nunca mais vão passar fome não é catarse, é alienação.

E a música final e ganhadora do oscar também (que eu gostei e até baixei), poderia muito bem ser substituída por "Um Mundo Ideal":

Aladdin: Um mundo ideal
Jasmin: Um mundo ideal
Aladdin: Que alguém nos deu
Jasmin: Que alguém nos deu
Aladdin: Feito pra nós
Jasmin: Somente nós
Aladdin & Jasmin: Só seu e meu.


Exatamente, meu casal preferido da Disney: Só de vocês dois.


Cada prêmio honestamente merecido. Fotografia, trilha sonora, etc, etc. Podem ver sem medo. Recomendando para sair feliz do cinema.

E eu tenho problemas, porque eu achei o ator do Jamal sexy. Não me perguntem porque. E imaginem meu susto ao constatar que ele será o ZUKO na versão cinematográfica de AVATAR.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Parceria de Jack White com Alicia Keys ganha clipe

Foi lançado oficialmente nesta terça-feira, 30, o clipe de "Another Way to Die", música feita em parceria por Jack White (do White Stripes) e a cantora Alicia Keys para a trilha sonora de Quantum of Solace, o vigésimo segundo filme do agente britânico 007 (mais uma vez vivido por Daniel Craig).

A canção já havia vazado na internet em áudio, retirada de uma propaganda da Coca-Cola Zero norte-americana. O disco com a trilha sonora completa do filme será lançado no final de outubro, vinte dias antes da estréia do filme no Brasil, em 14 de novembro.
(FONTE: http://www.rollingstone.com.br, setembro de 2008)


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Blog do Saramago

- - - de Rafael, para o na Vitrine.



Só para compartilhar. Comecei a lê-lo esses dias:

O Caderno de Saramago

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Persépolis - Quadrinho e filme





- - - de _Renata, para o na Vitrine.


O mundo é muito maior.


Foi isso que Persépolis me ensinou.



Esse foi com certeza um dos quadrinhos mais ricos que já li. E digo isso em vários sentidos. A estética de preto e branco, o conteúdo político e social abrangente e crítico. Nossa, eu simplesmente achei genial.

Marjane Satrapi é uma iraniana que com dez anos de idade vivenciou a revolução islâmica em seu país. Suas experiências pessoais, seu ponto de vista infantil, sua adolescência conturbada e todos os elementos que compõem a vida de qualquer ser humano são fielmente narradas em uma autobiografia publicada em vários países, inclusive no Brasil. Em 2007, um filme de produção francesa com direção da própria Marjane foi lançado.

Persépolis não é uma obra sobre o oriente feita para o ocidente, como certos livros puxadores-de-saco-dos-EUA sobre pipas e meninos infelizes são. Em nenhum momento Marjane exalta a liberdade do capitalismo, a superioridade consumista e nem nada dessas besteiras.
Ela reflete, isso sim, sobres as perdas que seu povo sofre, as consequências de uma guerra, quando a palavra do amor é transformada no grito do ódio, quando o riso é considerado nocivo e quando a imperfeição humana impede que a harmonia acompanhe a evolução de um todo.

Ela mesma assume seus erros, o que seu medo a fez cometer e como podemos nos deixar levar por nossas angústias.

Ao mesmo tempo, nos é retratado um cotidiano ímpar, que eu sinceramente desconhecia. O pouco que nos é oferecido sobre países como o Irã é tão deturpado que eu fiquei surpresa em alguns momentos.

Eu não quero entrar em detalhes, porque pra mim tudo que eu digo é spoiler. Mas com certeza, Persépolis não crítica sistemas, ideologias nem religiões. Persépolis crítica a ausência de integridade nas lideranças, as concepções desprovidas de empatia pelo semelhante e a fé cega, sem carinho e amor.

A animação não foge do enrendo principal, somente pulando alguns momentos e cenas. Tem uma trilha sonora suave e uma linguagem bela de narração.



E pra mim, a avó dela é a melhor. Quero ser uma avó assim um dia.

domingo, 23 de novembro de 2008

O novo de Woody Allen

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


O na Vitrine já teve tempos melhores e, com essa esporadicidade nas postagens, é possível que demore um tempo considerável até alguém aparecer por aqui. Mas não me importa. Tereza e Renata me entenderão: é preciso que essa porta esteja aberta, para nosso próprio bem. Tem horas que queremos dizer, não importa a quem.

Agora são 2h36 da manhã e acabo de voltar do último filme do Woody Allen, que confesso ter ido relutante. Aos fãs do cara, não me achem um anti-allenzista. Minha única implicância com ele é o outro único filme que assisti de sua autoria: Match Point, no qual o insuportável protagonista faz do longa uma experiência nada motivadora.

Vicky Cristina Barcelona, ao contrário, tocaram-me fundo. Aqui, pretendo fugir um pouco da tradicional análise técnica – roteiro, direção, fotografia, etc –, que, passando por cima, estão bastante agradáveis em seu estilo peculiar. Recursos que só seriam vistos com naturalidade há algumas décadas aparecem vez em quando na película. Uma brincadeirinha que acaba trazendo novos ares para cenas que poderiam ter passado em branco. Por outro lado, o cuidado com a cor lembra um pouco o tratamento de produções mais atuais (ou menos antigas), como Amélie Poulain ou qualquer coisa do Almodóvar.

Prefiro seguir a uma interpretação mais “semântica”. Adianto que este post é destinado àqueles que já assistiram ao filme e pretendem discutir sua mensagem. Aos outros, prefiro que aceitem minha recomendação de não perder esta bela oportunidade de ir aos cinemas. Na volta, podemos continuar deste ponto.


Prefiro que seja assim porque, durante aquelas horas, Woody Allen conversou comigo. Também vou fingir que não vi o que a crítica está falando por aí: que “A Barcelona de Allen [...] é de cartão postal. A identidade catalã não se retrata no filme (...) e a vida mostrada no filme é absolutamente irreal (um artista de sucesso com uma supercasa, um supercarro e com amigos poderosos que lhe emprestam seu avião particular)” [fonte]. Pra mim, isso é pequeno para um filme que, intelectualmente, fala na minha língua. A narrativa faz total sentido e cada cena, cada personagem, cada frase do narrador são como o nó que estava faltando. Porque a mensagem do filme estava lá o tempo todo. Em nenhum momento te deixam esquecer que é disso que estamos falando. Espero ser capaz de justificar este pondo de vista. Vou começar definindo disso.

Disso sou eu. Poderia dizer: disso são as pessoas em geral. Mas subtraio-me de tamanha generalização. Então, quero dizer que o filme fala de mim. De como são os meus relacionamentos e de como eu gostaria que eles fossem, principalmente. Fala que para relacionar-se é necessário sofrer, apesar de caber a mim escolher se isso é bom ou ruim, e de como administrar esta condição. Fala também de como essas decisões e, portanto, meus paradigmas e minhas atitudes, criam novos conflitos e novas inquietações. Fala que, afinal, eu e o outro somos relacionados visceralmente. Relacionar-se é o que faz de mim, eu. Por isso também, a vida traz tantas perguntas e tão poucas respostas. Fala, enfim, que todos somos diferentes; e isso diz respeito a mim.

É fácil, para tanto, notar que cada uma das personagens é componente nascida inteira do seu criador, o autor, e também daqueles “eus” que, como eu, identificaram-se com os conflitos explorados. A saber: Vicky e a necessidade de segurança; Cristina – a inconstância e a vontade de se expressar, dando sentido à própria vida; Juan Antonio – os desejos carnais; Pai de Juan – a perplexidade ante a vida; María Elena – a arte à flor da pele e o talento inato; Doug – o comportamento padrão e o peso das estruturas sociais; Judy – o medo de se frustrar. Todos repletos de dúvidas, insatisfeitos com alguma coisa, e movidos pela vontade de tomar as rédeas da própria vida.

No entanto, é interessante notar também como importantes pequenas decisões tomadas pelo escritor fazem com que a mensagem chegue inteira. As protagonistas Vicky e Cristina têm trajetórias que se contrapõe magistralmente, deixando claro como o rumo das desventuras deve ter sido milimetricamente medido para que a visão de uma não se sobreponha a da outra. Isto é, não vemos um traço sequer de moralismo barato da parte de Allen, defendendo um ou outro ponto de vista. O que vemos é um olhar positivo em cima das atitudes ousadas, no matter what. Por exemplo, quando Vicky enfim tenta dar vazão a seus sentimentos e encontra-se com Juan Antonio, sendo surpreendida por María Elena, armada, e se machuca; é neste momento que a personagem parece enfim estar pronta para tomar uma decisão: manter o casamento ou entregar-se a suas paixões? Nada no filme indica que ela tenha tomado uma ou outra decisão, mas o ponto é que, se ela não tivesse dado uma chance para Juan, ela provavelmente se lamentaria sempre, ao sinal de qualquer pequeno problema. É ainda possível inferir que o comportamento desequilibrado de Ma. Elena a tenha assustado de tal forma a dar-lhe a segurança que ela precisava para continuar casada com Doug. Nesta altura da história, contudo, a personagem Cristina, volúvel e pouco convencional em suas atitudes, já abrira mão da vida a três, tomando uma decisão socialmente “louvável”, enquanto Vicky tomava outra socialmente “mal vista”, apesar dos motivos particulares de ambas. O tom da trama, ao contrário da sociedade, não julga, não pesa, não moraliza. Ele diz: “Tente. Você se tornará mais preparado para fazer as suas escolhas”. É isso o que o narrador tenta valorizar ao dizer que "Cristina voltou de suas férias sem ter certeza do que queria, mas apenas com a certeza do que não queria". É como se esse fosse o único amadurecimento possível.

E por que disso? Como o filme justifica seu conselho, aparentemente inofensivo mas, no fundo, subversivo e até assustador? Ora, é a incompletude do sujeito que está constantemente sendo exposta. Essa incompletude não permite ao sujeito abandonar o peso da dúvida, cujo os únicos remédios são o arriscar, quiçá o arrepender-se. Quando Cristina conta à amiga e a seu marido que, sim, vivia um relacionamento à três, amara uma mulher e estava feliz, é nítida a relação vertical entre o eu e o outro. Uma relação lacaniana, também conhecida como “o estádio do Espelho”. É a visão de que o eu se torna eu no outro. Você nasce e cresce absorvendo dos pais, amigos e estranhos as formas corretas de obter prazer e os objetos corretos de prazer, adequando para tanto sua estrutura psíquica e comportamental. Contudo, os pequenos desgostos da vida nos mostram que nem tudo o que é certo é bom e nem tudo o que é errado é ruim. Portanto, quando Vicky ouve de sua interlocutora uma versão unilateral daquela nova forma de felicidade, perfeita e satisfatória, enquanto discurso; seus pequenos monstros voltam a atormentá-la. Porque o outro é sempre quem nos vende a forma ideal de felicidade, fórmula que nunca conseguimos alcançar e portanto nos sentimos fracassados. É a velha história do jardim mais verde no vizinho, acrescida do agravante pensamento: se ela consegue e eu não, algo só pode estar errado comigo. Este conflito é levado ao extremo quando Judy, sofrendo do mesmo mal, projeta suas frustrações em Vicky, levando às últimas conseqüências a paranóia da protagonista.

Ainda assim, os diálogos informais e descontraídos, o visual bonito e clean, a trilha sonora agradável e outros aspectos técnicos conseguem manter uma invejável leveza emocional durante a película. Essa leveza é de um otimismo ímpar. Não é o otimismo vazio de uma felicidade fortuita, mas o otimismo de quem vê as questões mais profundas e angustiantes do ser e ainda assim consegue aproveitar a vida. O pai de Juan Antonio é provavelmente a personagem que carrega melhor essa mensagem. Veja, a imagem de um poeta velho que não publica seus textos por vingança contra a vida não pareceria tão saudável e sorridente senão na fotografia de Allen.

A grande mensagem do filme acaba sendo como um remédio eficaz contra nossa insatisfação crônica. Quando Penélope Cruz, na voz de sua personagem deliciosamente maluca, acusa Scarlett Johansson de nunca estar satisfeita com nada, ela é uma metáfora perfeita da própria vida cobrando-nos sossego. Da mesma forma que Cristina encontra-se insatisfeita, mesmo depois de fugir dos padrões de relacionamento para dar significado a sua vida, o mesmo ocorre com o restante das personagens, em especial Vicky, que se questiona se sua vida perfeitamente “dentro dos planos” lhe trará tranqüilidade (ou felicidade). É nesse sentido que a vida das personagens, e também as nossas, parecem nunca finalizar-se. O filme propõe então esse equilíbrio perigoso, incitando-nos a fugir da mesmice e do óbvio (exemplo, na ridicularização da superficialidade dos amigos de Doug), mas aprendendo a dar valor a nossa própria história e às nossas próprias conquistas. Nas telas, tudo é arquitetado para que possamos compreender isso com plenitude, mas sabemos como na vida real é complicado e difícil enxergar sempre os dois lados da moeda.

Com isto, chega a ser ácida sua visão sobre aqueles que ainda acreditam em certo e errado e preocupam-se, como Doug, em poder dar palpite sobre as escolhas que não são suas. Quando este afirma tão categoricamente que Cristina está fadada à eterna busca por felicidades fugidias, não é capaz de perceber que um certo amadurecimento de sua esposa a levava à inquietações tão semelhantes às da amiga. Outro ponto acertado na história é a participação mínima de Doug, que não chega a ser mortificado. É como se seu “lugar comum” já estivesse pré-perdoado por nós ante a massificação do comportamento.

Por fim, o filme trata do desapego aos ideais. Citando o lema de Maria Elena e Juan Antonio: “o amor só é completo quando idealizado”. Porém, completo não é feliz. É engraçado que esse seja exatamente o joguinho capsioso do filme, que nos diz o contrário: que é a idealização que nos causa sofrimento, e que o amor nunca pode ser esse jogo solto de palavras. Ao dar tratamento equivalente à Vicky e à Cristina, à razão e ao impulso, ao padrão e ao exótico, Allen valoriza a história única (e bonita) de cada personagem. Mostra-nos que não há fronteiras quando nosso objetivo é buscar a felicidade, e mostra, por outro lado, como é infrutífero pretender encontrá-la.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

The Mist


- - - de Tereza_, para o na Vitrine.


Sabe aquele filme (ou livro, ou novela) que o final estraga tudo? São casos bem comuns, difícil é achar um final que faça tudo ficar melhor.
The Mist definitivamente se encaixa nessa raridade.
Fui assistir o filme sem saber muita coisa, além de que era um filme baseado em Stephen King (90% dos filmes baseados em Stephen King valem a pena), sobre um nevoeiro... que matava pessoas.
De ínicio eu já gostei porque o trabalho de câmera é espetacular. É por isso que eu assisto filme de terror inclusive, são os filmes com ângulos e técnicas de filmagem mais legais.
Mas um tentáculo gigante comedor de gente depois e eu já tava, putz filme de monstro, não gosto, monstro não assusta.
Pois é, ledo engano, porque o filme não é sobre monstros nada, e sim sobre pessoas presas numa situação de pressão e como isso é mais assustador do que tudo. Ponha na mistura uma pregadora do Apocalipse carismática e um revolver com dez balas e você tem um dos finais mais chocantes que eu já vi.
Não chocante pelo o que acontece, mas chocante por eles terem tido a coragem de te-lo feito (inclusive porque no conto original do SK o final é deixado em aberto). É quando você está assistindo um filme e percebe que ele seria perfeito se acabasse assim, mas você sabe que eles nunca fariam porque é muito... bom, melhor eu não falar o que, porque eu não quero estragar a surpresa. O negócio é que eles fazem assim e você demora pra processar o que aconteceu.
O filme em si não é perfeito, é meio arrastado em alguns pedaços, a trilha sonora é no máximo adequada e tem alguns efeitos especiais horríveis (embora todos os que se passam na névoa sejam muito eficientes), mas como eu disse, o final e atuações bem acima da média fazem relevar os defeitos.

ps: ah sim, só um último comentário para os fanáticos por Shyamalan como eu, The Mist é tudo que Fim dos Tempos poderia ser e não foi.

na Vitrine.