sexta-feira, 28 de maio de 2010

Dude, we are Lost

- - - de Rafael, para o na Vitrine.



Não quero deixar de falar de Lost, apesar de já ter passado a minha vida falando que esse seriado não presta. Eu sei que ia ficar mais bonito para o meu lado se eu simplesmente encolhesse o rabo e fingisse que não é comigo. Mas enfim, vivemos numa democracia e eu vou fazer uso da minha liberdade de expressão pra ser chato mesmo. Falei.

Acontece que eu também fiquei impressionado com Lost naquela longínqua primeira temporada. É um seriado impressionante mesmo, não vou negar. Mas aí foi ficando chato, chato, até que lá pela quinta temporada (eu = lerdo) percebi que não dava mais e larguei. Na sexta, só faltava mais uma temporada para o fim e decidi que eu poderia dar uma chance, afinal não tinha perdido tanta coisa assim.

E aí, mesmo sem grandes expectativas, ainda assim consegui me decepcionar com o final. E foi uma puta decepção.

Pra mim, Lost tem três problemas principais:

1. Personagens chatos. Ok, isso é completamente pessoal. É só porque é impressionante como era só eu começar a gostar de alguém pra ele morrer, sumir, ficar chato... Por outro lado, tive que aturar o INSUPORTÁVEL do Jack por 6 longas temporadas.

2. Texto impressionante, como eu já disse. Impressionante no sentido de contar com inúmeras técnicas de narrativa pra te prender: muito mistério, muito suspense, muita trama emaranhada, muito personagem... e aí de repente você percebe que isso tudo só serve pra desviar sua atenção do fato principal: Lost não tem nada de mais. É uma narrativa muito dinâmica, mas simplesmente para te fazer de bobo. Não gosto que me tratem assim. Simplesmente.

3. Cientificismo barato e fajuto. Usar eletromagnetismo como simbologia para fenômenos inexplicáveis morreu no século IX. Energia “aparece” e “some” na presença de campos eletromagnéticos, mas hoje já se conhece equações de Maxwell e vetor de Poynting, e aquilo o que parecia bruxaria no passado é muito bem compreendido hoje. Aliás, tem muito físico que diz que o eletromagnetismo é o modelo mais coerente da física moderna. Fora que me inventam um físico que estuda ratos para justificar viagem no tempo. Sério. Nem sou contra avacalhar a ciência pra criar ficção científica, não. Coloquem barulhos no espaço, viagem ao centro de buracos negros, mas, pelo amor de Deus, não usem superstições do passado e estereótipos canhestros porque isso é piegas demais.

Mas aí, ok, você abstrai isso tudo e enfrenta a última temporada para encontrar um final mais sem história do que nunca.

[SPOILER]

A única explicação que se preocupam em te dar é que o Jack morreu e está numa espécie de “realidade paralela”, se preparando para “seguir seu caminho”. Ah vá! Esse spoiler já rolava desde a 2ª temporada! Tudo bem, antes acreditava-se que a ilha seria o purgatório, etc. Mas a impressão que dá é que o spoiler estava certo e os autores resolveram dar uma pequena acochambrada no final, para não serem tão óbvios. Aí, pra escapar da obviedade, colocam o Jack-espírito numa capela em busca de uma luz no final do corredor conversando com o pai morto chamado Christian Shephard! U-A-U. Mas não sem antes apelar forte para o emocional do espectador juntando meigamente todos os casais no além. E olha, eu sou super manteiga derretida. Choro fácil com essas coisas (e confesso que chorei com Claire e Charlie). Mas depois do final eu só lembro de mim pensando: “que merda, me fizeram de bobo de novo!”. Enfim.

[/SPOILER]

Em busca de algum conforto, fui procurar na internet UMA CRÍTICA QUE SEJA falando mal desse final horroroso e só achei pessoas emocionadíssimas, falando de como Lost é sobre fé e esperança. E que a ilha não é importante: o importante são as relações humanas, etc. Olha, pode até ser. Até concordo, em certo ponto, com isso. Mas isso só me mostrou como esse final desviou completamente a atenção dos espectadores daquilo que Lost tem de melhor. E, se prepare, leitor, porque no próximo parágrafo eu vou começar a falar bem de Lost. Guarde esse momento porque não deve acontecer de novo.

Na minha opinião, Lost conseguiu um feito impressionante: ele conseguiu mostrar, da forma mais didática que eu já presenciei, como o ser humano consegue ser babaca! Sem sarcasmo, juro. Você pensa em todas aquelas mortes, todas aquelas situações, todas as mentiras, as vinganças, as traições, e pensa: pra que? Qual o propósito de tanto sofrimento? Busca da sobrevivência? Não, isso só era o objetivo principal nas primeiras temporadas. Truques do destino? Não, não teve destino agindo. Quem agiu durante o seriado inteiro foram os próprios personagens. Se você pensar bem, a maioria daquelas criaturas conseguiu de forma magistral foder a própria vida de um tanto, mas de um tanto! Todo mundo pagando de espertalhão, agindo baseado em crendices infantis, acreditando em um propósito maior. E olha só: não tem propósito maior. Sério, isso é genial. É exatamente o que as sociedades têm feito aqui no mundo real: se digladiarem sem motivo. Lost é uma rede de intrigas que poderiam simplesmente não existir. Não soa familiar?

Aliás, a inversão de valores, tão característica do mundo em que vivemos, marcou presença constante no seriado. Olha a história do Jacob e do irmão. O irmão dele simplesmente teve a coragem de olhar para mãe-adotiva-assassina e falar: “eu não acredito em você. Tchau”. E aí isso faz dele um monstro! Enquanto o Jacob vira um herói por não ter feito absolutamente nada.

Você vê relações de poder abusivas. Você vê arrogância para justificar ignorância. Você vê extremismos de cunho científico e religioso. Você vê individualismo exacerbado. O que, dos defeitos da nossa civilização, não está representado em Lost?

Tem gente que deve estar pensando que eu não gostei do final de Lost porque eu não gosto de final feliz. A questão é, será que aquele final, só porque foi bonitinho, foi realmente um final feliz?

na Vitrine.