terça-feira, 14 de agosto de 2007

Qual é o Seu Pedido?

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


No último sábado eu fui, depois de constantes indicações da Leila, assistir à peça “Qual é o Seu Pedido?”. O espetáculo, apresentado pelo grupo “Anônimos S.A.”, se trata de uma apresentação um tanto cômica e imprevisível, por ser formada basicamente por esquetes de improvisação. O nível dos atores é impressionante. Muita criatividade e promessa de risos desmesurados é o que espera quem resolver aproveitar a temporada que vai até o dia 18 de agosto.

É claro que, numa situação dessa, em que os atores tem de arriscar constantemente e pôr em funcionamento o máximo de sua criatividade, muito besteirol pode sair. Mas nada que não esteja dentro dos parâmetros que, aliás, são ditados pela platéia. A qual interage do início ao fim. O cenário é uma espécie de bar e os atores seriam os supostos “garçons” prontos para atender todo e qualquer pedido do público. Para pôr ordem à bagunça, são distribuídos alguns cardápios em que os desafios vêm no lugar dos pratos. E com nomes nada convencionais.

A apresentação é organizada na forma de uma competição. Os cinco garçons são apresentados e a platéia “tira” os times. De um lado os verdes, do outro os laranjas e no meio o ator curinga, que participa atuando em ambas as equipes.

O legal da peça é que, a cada nova apresentação, o resultado é sempre novo. As situações mais que inusitadas prometem. Para aqueles que sempre se queixam da programação morna da capital, está aí um ótimo pedido. Faça o seu.



De 10 a 18 de agosto. Sexta e sábado às 21h. Domingo às 20h. Teatro Nacional Cláudio Santoro - Sala Martins Pena. Censura Livre. Ingressos R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Antecipados: Chilli Beans e bilheteria do Teatro Nacional. Doadores de 1Kg de alimento não perecível pagam meia. Informações: 8111-7868 ou 3325-6240.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A vida secreta das palavras


- - - de Tereza_, para o na Vitrine.


Uma mulher loira, não muito bonita, não exatamente feia, com olhos muito mais velhos que o resto do rosto, janta, lava a louça, e se deita sem fechar aos olhos. Ao fundo uma voz infantil relata fatos do cotidiano: ela afaga meu cabelo, me conta histórias, canta pra mim, ás vezes chora... E cena.

Quem é a criança? Quem é essa mulher? Essa é a questão do filme. Ela não fala muito, gosta de ser deixada em paz, mal reage. Apenas sobrevive.

Ela pega um ônibus, duas senhoras discutem Vin Diesel e Van Dame. Conclusão, Vin Diesel é melhor ator, Van Dame talvez tenha mais músculos. Será isso importante? Será que qualquer coisa da vida importa?

A mulher, Hanah é seu nome, é contratada como enfermeira para cuidar de uma vítima de um acidente em uma plataforma de Petróleo que esta sendo desativada.

Longas cenas de dialogo, com cortes que parecem pulos no tempo mas na verdade são voltas. O acidentado é um americano que apesar de temporariamente cego e com queimaduras dolorosas pelo corpo todo, aparentemente não consegue parar de falar. Inicialmente ele destoa do resto do filme, que é escuro, fechado, silencioso, mas ele é um dos personagens mais tristes.

Através de mentiras ela conta verdades pra ele, no que se revela ser um recorte de tragédias. Como apreciar a vida, ser simpático a tragédia de outros, não achar tudo obsoleto, quando a pior coisa do universo aconteceu com você? Quando até a morte é uma benção que te é negada?

Ele é melodramático e carente, ela seca e divertida. Por mais devastadora que seja a história nunca é piegas ou melosa. Tem até seus momentos de leveza. Um mistério é instigado, mas quando for a hora de você saber a verdade será que vai ter estomâgo?

Eu entendo a intenção do filme, é importante que certas coisas não sejam esquecidas, mas será que depois de tudo ainda é possível um final feliz?

A voz infantil acredita que sim, aparecendo numa hora em que já nem me lembravámos dela. Resta saber se nos acreditamos nela.

O filme é ousado, mas não saí dele pensando "nossa, que filme bom" e sim "nossa que filme triste". Será isso o suficiente?

Paris, Te Amo

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

Lindo, singular e encantador. Esse filme a várias mãos me deixou alegre por dias.

O filme na verdade é uma coletânea de curta-metragens, cada um com diretores e elenco próprios; todos, porém, gravados na Cidade das Luzes. É complicado fazer uma crítica do filme como um todo, uma vez que cada fragmento do texto tem suas próprias qualidades e nuances. Mas o incrível é que não há nenhum curta ruim ou fraco. São duas horas de graciosidade e aquela espécie estranha de nostalgia sobre uma época nunca vivida.

Entre os grandes nomes envolvidos de alguma forma com o projeto estão o diretor Alfonso Cuarón e os atores Natalie Portman, Maggie Gyllenhal e Elijah Wood.

O curta de Cuarón, o segmento Parc Monceau, é um diálogo super bem-feito entre duas personagens que, a princípio, não dá para saber sua relação. O curta que foi gravado em uma única tomada, imagino que tenha aproximadamente 10 minutos, nos leva a deduzir uma história que, na verdade, é outra.

Natalie Portman, uma atriz amadora (no curta, pelo amor de Deus), vive um caso de amor com um garoto cego. A garota, para variar, dá um espetáculo de atuação.

Maggie Gyllenhall também interpreta uma atriz. E seu francês está impecável. Não que eu tenha grandes parâmetros para comparar, mas ela me convenceu totalmente. Ela falava com tanta naturalidade. E, aliás, que idioma gostoso de ouvir, não? É tão apaixonado...

Já Elijah Wood entra num conto de amor para lá de psicodélico com uma vampira, em uma cidade azul ciano. O sangue estilizado da cena, tudo, criou um ar estético tão non-sense em relação aos outros filmes, que acabou sendo um efeito interessante.

Entre outros fragmentos que me encantaram estão o primeiro, que é um encontro não muito casual entre estranhos, o dos mímicos e outro sobre um casal a ponto de se divorciar, quando a mulher descobre que tem uma doença fatal e o marido não tem coragem de partir; é quando eles reaprendem a se amar.

Como eu disse, todos os curtas são muito bons. Tudo é muito bonito e, além da vontade de conhecer a cidade, o filme dá uma vontade muito forte de ser feliz. Comigo, pelo menos, foi assim e funcionou.


imagens em http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/

sábado, 11 de agosto de 2007

A Saga do Tio Patinhas


- - - de Tereza, para o na Vitrine.


Carl Barks é um dos quadrinistas mais importantes de todos os tempos, e com certeza o mais importante da Disney. Também conhecido como homem dos patos, foi nas mãos dele que o universo de Patópolis e a personalidade atual do Pato Donald tomaram forma. Seu personagem mais complexo porém, sempre será Patinhas McPatinhas, ou simplesmente Tio Patinhas.

Ao longo do seus anos de trabalho Barks deixou várias pistas do passado do pato mais rico do mundo em suas histórias, mas nunca montou uma biografia oficial.

Isso só aconteceu no início dos anos 90, quando a Don Rosa, discípulo confesso de Barks, foi encomendado pela Disney uma edição de aniversário, que pudesse seguir, na medida do possível, a cronologia proposta por seu criador.

Quase 17 anos depois, finalmente chegou ao Brasil uma das mais bem feitas compilações dedicadas ao formato. No estilo americano, papel especial e um puta comentário editorial "A Saga" é um deleite.

Dividos em três livros, as histórias narram desde o jovem Patinhas na Escócia, ganhando a moedinha número 1, até suas aventuras, já como o pato mais rico do mundo, com seus sobrinhos Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho.

Patinhas fez de tudo, foi cowboy, garimpeiro, dingo e grumete. No ínicio tinha ambições modestas, ir para América para conseguir mandar dinheiro pra família, mas a medida em que vai conhecendo o mundo e se desencantando com ele, seus sonhos de grandeza vão aumentando, chegando ao ponto de se alienar quase totalmente.

Mas vou me adiantando. Patinhas começa como um jovem esperto porém, ingênuo que aprende desde cedo que com trabalho duro e perseverança tudo pode ser alcançado. Ele encontra muitos bandidos pelo caminho, inclusive o protótipo do que seriam os irmãos Metralha, mas é apenas com o bandido McMônei, em um dos melhores capítulos da história, que alguma coisa se quebra em suas convicções. Não vale a pena confiar nas pessoas, é melhor se virar sozinho, pois senão você pode ser passado pra trás. Até o dia em que contraria tudo o que foi ensinado e, por puro orgulho, resolve se vingar de alguém que aparentemente não é seduzido pelo dinheiro. Atinge o fundo do poço, e só com muito esforço consegue sair. E isso tudo vem de um pato falante.

Carismático, corajoso, esquentado e muquirana, conhecendo sua família dá pra entender o porque dele ser assim. Além dos pais e das irmãs, vemos seus ancestrais e suas primeiras ligações com a família da vovó Donalda.

A Saga também está intimamente ligada a história americana, misturando os personagens Barkasianos com pessoas reais (Patinhas deu uma surra em todos eles), como Bufalo Bill e o presidente Roosevelt. Inclusive ótima a cena em que sua irmã Hortência, mãe do Pato Donald, dá um sermão em Teddy reclamando o voto feminino.

Os capítulos com Dora Cintilante, o grande amor da vida dele, são altamente sugestivos ("vocês são jovens demais pra isso" afirma o Pato Donald quando seus sobrinhos perguntam sobre ela), e estão entre os melhores. Afinal, como seria um vida de perigos e aventuras sem um romance.

A arte é mais do que maravilhosa, de um realismo impressionante, uma completa atenção aos detalhes, gags visuais fantásticas, algumas cenas parecem que poderiam ser emolduradas. Sem exagero, só as sombras já seriam o suficiente para um estudo artístico.

Por fim, a grande lição é que muito mais importante que o destino, é a jornada. E você está convidado para essa.



terça-feira, 7 de agosto de 2007

21 Gramas

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

"Dizem que perdemos 21 gramas no preciso momento da nossa morte...todos nós. O peso de cinco moedas. O peso de um pedaço de chocolate. O peso de uma borboleta...Quanto pesa a vida?"


Título Original: 21 Grams
Gênero: Drama
Direção: Alejandro González-Iñárritu

Essa crítica, vou começar pelo defeito: o roteiro. Não quero dizer que ele seja mal feito ou mal trabalhado, mas a verdade é que eu já enjoei disso: recortes de cenas, vindas de espaços, tempos e personagens diferentes, montando um grande quebra-cabeça que só vai fazer sentido no final, à la Crash, O Grande Truque, Babel (por sinal, do mesmo diretor)... para citar os mais recentes, apesar de existirem muitos outros semelhantes. Pra ser sincero, essa é exatamente uma característica que teria feito o Rafael de alguns anos atrás se apaixonar perdida e loucamente pelo filme. Acontece que, não sei, essa receita não me impressiona mais. E quer saber, eu nem deveria ter escrito que isso é um defeito. Eu sei que, nas Artes principalmente, nada se cria; tudo se copia. Esse parágrafo foi tão pessoal que não faz nem sentido. Por tanto, a menos que você tenha se identificado com os meus sentimentos, para você a crítica começa agora.

21 Gramas é um desses filmes de beleza plástica. A câmera tremida, sabe, dá aquele ar de cinema alternativo muito gostoso. E o efeito não engana. É muito bem encaixado. Os filtros de cor também, causando um contraste sutil, uma impressão meio opaca. É tudo muito impressionante e bonito. Mas nada tão na cara. A beleza da fotografia é tênue... Apreciei bastante.

É um filme de impressões. Com símbolos muito fortes. Numa das primeiras cenas, um pai e suas duas filhas pequeninas sentados numa lanchonete, eu senti isso. O close da câmera está num canudo saindo de um líquido negro e borbulhate. A cena vai abrindo e descobrimos, em segundos apenas, que é a criança quem sopra o canudinho para borbulhar sua Coca-Cola. Mas a sensação inicial não era essa. Era de algo mais nojento, eu imaginei que fosse alguma droga, não sei porquê (alguém já ouviu falar em uma droga líquida, negra e borbulhante? Eu não). E, então, as crianças com seu pai. Um jogo muito estranho. Durante todo o filme, tudo permaneceu com a sensação de ser mais bonito do que parecia. Mesmo as cenas fortes, com drogas (de verdade) e sangue.

“Um filme de AMOR, ESPERANÇA e VINGANÇA”, dizia na capa do DVD. Mas, sinceramente, eu não esperaria encontrar muito disso não. Na verdade, por mais que seja uma trama complicada, e personagens profundos, tudo me pareceu justamente sem história. As cenas são ótimas. Mas não há lições de moral, e nem fica tão claro qual era o coração da trama. Eu diria que é, antes, um filme de como a vida passa, de como as pessoas são. Assim mesmo, sem grandes propósitos, como se o tempo simplesmente passasse. Apenas isso. O que não é pouca coisa.

O incrível é que eu sinto que o filme me impressionou da forma justamente oposta à proposta do diretor. Gostei muito das suas qualidades, mas não me surpreenderia se qualquer um achasse essa crítica completamente precipitada.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Budapeste

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

"O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela."


clique para ampliarEssa, a frase que me conquistou por duas vezes, ainda na primeira sessão de Budapeste. Não só pelo amarelo (eu gosto de amarelo), mas, espera lá, o Chico tem uma força tão incrível com as palavras e as imagens que ler um livro seu é de tirar o fôlego. É magiar.

Ta aí mais um enredo banhado -- encharcado! -- em metalinguagem. Ao que parece, todo artista tem paixão por isso, dizer-se em si. E em Budapeste temos uma busca constante pela comunicação perfeita, estando o protagonista aqui, em sua fala natal, ou na capital da Hungria. José Costa, um escritor anônimo, nos é apresentado em sua crescente carreira na qual lhe enche de vaidade estar suas palavras sob a autoria de outra pessoa. É quase como um adultério a profissão de ghost-writter, tão séria que nem na intimidade com Vanda lhe é permitido quebrar o anonimato. Mas acontece de esse mesmo escritor parar um dia, meio que por acaso, em Budapeste. Perdido no labirinto de informações húngaras, a única língua, diz-se, que o diabo respeita, um sentido novo desperta nele; e aprender o húngaro parece ter se tornado a sua nova concubina, um objetivo de vida.

Os dois cenários do livro, Rio de Janeiro e Budapeste, implicam também dois idiomas, duas atmosferas, duas companhias, duas necessidades, enfim, duas vidas distintas. Essa dicotomia é nítida. Mas ainda assim, a trilha de fundo de ambos os momentos é a essência do livro, que é a linguagem. O romance suscita falar e escrever. Mais que qualquer outra necessidade, nosso Zsozé Kósta precisa essencialmente desses dois verbos. Sempre para si próprio, porque sua vaidade não permite também qualquer forma de ambição. E qualquer pessoa sensível às artes é capaz de compreender isso. É um livro que só faz fertilizar qualquer forma de criatividade.

Tudo isso em um estilo encantador. Chico Buarque não escreve, desenha palavras, rubrica emoções e faz despertar o prazer de ser artista. Genial.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Harry Potter and The Deathly Hollows

- - - de _Renata, para o na Vitrine.

Não, eu não vou escrever nada aqui. Sendo eu o primeiro membro do na Vitrine a terminar este livro (há mais ou menos meia hora, e são uma e vinte da manhã), vou escrever uma crítica completa, como se estivesse destinada a este espaço, mas estará realmente no meu Blog, o http://renata-washu.blogspot.com/

Então se você já leu o livro ou não leu e não se importa em saber tuuuuudo que acontece, pode dar uma passada lá, onde mostrarei meu ponto de vista de toda a obra.

Saneamento Básico, o Filme

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


Jorge Furtado é sem dúvida um dos maiores diretores do atual cinema nacional. Em sua filmografia estão incluídos os notáveis Ilha das Flores (curta), O Homem que Copiava e Meu Tio Matou um Cara, voltando esse ano às telonas com Saneamento Básico, o Filme, uma ótima comédia com elenco de primeira categoria.

O enredo de Saneamento Básico se passa em uma vila humilde de descendência italiana, conhecida como Linha Cristal. Um lugar onde esgoto corre sem planejamento, causando mau cheiro e doenças. Inconformados, os moradores se reúnem numa assembléia para reivindicar investimento da prefeitura, mas não são exatamente atendidos. Não diretamente. Acontece que a prefeitura não possui verba para a obra de infra-estrutura, mas consta no orçamento uma quantia de dez mil reais para a produção de um filme de ficção que, não sendo rodado, deverá ser devolvido para o governo federal. Ante a situação, Marina (Fernanda Torres), moradora de Linha Cristal, topa o desafio de produzir o filme. Lança-se junto ao marido a desvendar o significado da palavra “ficção”, às dificuldades de construir um roteiro, à pelejar patrocínio... E assim, o filme acaba tratando da feitura de outro filme, por pessoas ignorantes, sim, mas com um objetivo nobre: a busca de dignidade.

Mais uma vez, o diretor amarra todo o filme com uma capacidade invejável de construir diálogos. Muitas são as vezes em que várias personagens, Marina e o marido Joaquim(Wagner Moura), em especial, gritam ao mesmo tempo, numa discussão quase infantil, em que o mais importante é fazer barulho. O que provavelmente não teria um impacto tão estampado se não fosse a atuação magnânima dos atores envolvidos. É técnica puramente cinematográfica, que não caberia em uma novela, por exemplo. É quando J. Furtado dá vida ao seu filme, filme mesmo. A tensão e a distração andam juntas, acompanhando também a ingenuidade que as personagens inspiram.

Outro ponto é a interpretação forçada do elenco do filme a ser rodado. Imagine você, sem nunca ter visto um filme na vida, ou, se já, foram raras as vezes, tendo de atuar para a câmera. Mais, com um roteiro simplório e falas irrisórias. O filme é assaz cômico nesses momentos. Porém, ainda resta ao fundo aquela crítica social: o cinismo dos governantes, a forma dúbia em que é remanejada a verba pública.

Resumindo. É um filme inteligente, engraçado, político, metalingüístico, com atores excelentes e diálogos; excelentes diálogos. Com direito até a mensagem ecológica no final. Filme de primeira.

imagens em http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/

quinta-feira, 19 de julho de 2007

A Rainha

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


Título Original: The Queen
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Site Oficial: www.thequeen-movie.com
Direção: Stephen Frears


Morre a princesa de Gales, Diana, a lady Di, a princesa do povo. E você pensou que o assunto já estava saturado...

Em A Rainha, um dos filmes mais indicados ao Oscar 2006, nos é dado penetrar a intimidade da família real inglesa quando do acidente. Um filme que acaba por redimir, lógico, artisticamente falando, a frieza a qual a rainha Elizabeth II (Helen Mirren) apresentou ao seu povo, insensível à fatalidade; e, por que não?, por pouco não beatificou o recém-eleito Primeiro-Ministro Tony Blair (Michael Sheen).

Longe de qualquer conotação política, é um filme da vida privada da nobreza. Humano e singular acima de tudo. Não é à toa que A Rainha tenha rendido o Oscar de melhor atriz à H. Mirren. De forma belíssima, a personagem principal toma vida na produção. Uma mulher que parece não existir em seus conceitos e fragilidade. Parece não caber no mundo, quando nasceu rainha e mostra uma estranha simpatia ao ato de votar. Talvez até o quisesse, só por experimentar. E, pasmem, até chora.

Não. Não o vejo como um filme político. Vejo-o como a experiência de uma vida irreal, ou não vivível.

Imperdível.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Harry Potter e a Ordem da Fênix

- - - de Tereza, para o na Vitrine.

Gênero: Drama
Tempo de Duração: 138 min
Direção: David Yates
O terceiro e o quinto filme da série Harry Potter são os melhores. Por que? Dizem que a maneira mais fácil e eficaz de chamar a atenção do ser humano é através do sexo e da violência. O terceiro filme fala sobre sexo, esse sobre violência. Por que o terceiro ainda é melhor? Bom...

A cena que resume o que é o quinto filme se dá perto do final, quando Dolores Umbridge (Imelda Staunton), sem aviso, sem pensar nas consequencias, com barulho em meio ao silêncio dá um tapa violento em Harry. É isso que David Yates, o quase novato diretor, faz com o espectador, machuca tão rápido que ele mal percebe, mas ainda assim dói.

O filme é político e só por isso já carrega em si a violência. A violência de um governo que manipula cidadãos e a impressa a pensar que a guerra não existe, que tudo não passa de traição, traição à nação, traição à toda uma raça. A negação pode ser a maior das violências e não é por acaso que o Ministro (cargo mais democrático impossível) tem sua foto estampada aos molde de um certo Fuher, só faltando uma suástica para ficar mais claro. Mas Harry Potter é, felizmente, mais sutil que isso.

Até agora foram dois vilões, e ainda nem comecei a falar do Voldemort. E adivinhem, não é tudo mais um plano maléfico para a conquista do mundo, os "mocinhos" fazem mal uns aos outros. O mundo não é mais o que era antigamente.

Voltando a Umbridge, até agora a mais eficaz vilã dos filmes, começa achando que sua influência se dará através do soft power (já viram "O Dia em que o Brasil esteve aqui?") mas perde o controle rapidamente diante da convicção de Harry, uma mentira contada cem vezes se torna uma verdade, mas é mais difícil convencer aqueles que já sofreram demais por causa dela. Sangue mancha a reputação de Hogwarts, finalmente deixando de ser percebida como um refúgio, e não é sangue de batalhas. As palavras são mais fortes do que a espada. Umbridge não é nada burra.

Felizmente Hermione Granger, assumindo posto de segunda protagonista, também não. Acertadamente Yates expande o tempo dela no filme, difícil uma cena em que sua presença, física ou não, não é sentida. Só um personagem complexo como ela compreenderia tudo o que está se passando, e por isso muitas vezes o ponto de vista é o dela, ela observa muito e passa boa parte do filme sentindo e maquinando. Porém como é uma jornada emocional, apenas quando a professora que ela menos respeita é humilhada publicamente resolve tomar uma atitude. A cena é excelente inclusive. Emma é capaz de em alguns segundos demonstrar tudo o que se passa na mente e coração do personagem, sem falar nada. Você quase pode ver a linha de raciocínio e o segue sem grandes problemas. Rebelião é a resposta, quebrar com o sistema que ela tanto ama e tira forças é a melhor saída.

Pode-se argumentar que ela é o cerébro do trio mas aqui ela atua como o coração. Nada deixa de ser racional, mas o que a motiva é o que ela sente, essa vontade de deixar o mundo mais seguro nem que seja as suas custas.

A cena em que o espelho se quebra com a imagem dela refletida diz tudo. Esqueçam aquela antiga Hermione, aquela velha imagem, a nova vai guiar vocês, a nova é uma líder.

Pela primeira vez o filme focaliza na amizade dos três, e talvez por isso pela primeira vez Rony não me irrita. Ele age com um bom amigo que já se acostumou a ser o menos especial da turma e que não se incomoda com isso. As pequenas cenas em que eles estão apenas conversando, coisas importantes ou não, são jóias. A ação fica pra depois, quando Harry finalmente entende que eles estão nisso juntos.

A tensão permeia o tempo todo. É o menos engraçado (e engraçadinho) de todos, a única cena em que eu ri foi a da apresentação da personagem tragicômica Luna Lovegood, não que ela seja uma piada, mas sim porque ela é fodástica demais. Uma sabedoria tão excentrica ficaria ridícula nas mãos de uma atriz menos competente, mas Evanna Lynch dá conta do recado. Ela foi feita para o papel, comparando-se apenas à escalação da Emma, anos antes. Em momento algum perde-se a impressão que ela sabe mais do que todos os outros personagens juntos, até mesmo quando está sendo judiada. Ela já aprendeu a lidar com a violência e daí vem seu charme. Harry tem que aprender dela também.

Não vale muito a pena discorrer sobre Neville e Gina, já que os papéis são mais que secundários. Se eu não tivesse lido os livros provavelmente me perguntaria o que eles estão fazendo quando invadem o ministério, por que eles estão ali. Sejamos francos, os gêmeos tem uma papel mais importante que esses dois.

Quanto ao Harry, acho que concordo com a maioria das escolhas feitas nesse filme. Cortarem as inúmeras crises emo que o rapaz tem no livro e condensa-las em apenas uma foi o melhor caminho, existe assim mais espaço para o crescimento emocional verdadeiro. Finalmente mais confortável no papel de líder (com um empurãozinho de Hermione, é claro) as cenas do DA são uma delícia, se houve algo light foram elas. Mas não devemos esquecer que todas tinham um objetivo maior, defesa, para se defender de Voldemort, mas também para se defender da opressão. Para se defender da violência imposta pelos "mocinhos".

E quando finalmente ele tem que pôr essa defesa a prova, falha na metade do teste. Aprendeu a contornar e evitar a opressão, mas mesmo assim todos seus amigos, seu companheiros de batalha, caem sob jugo inimigo e seus destinos estão em suas mãos. E é hora de fazer a escolha mais difícil, condenar o mundo mágico (e o trouxa) às trevas ou assistir os amores da sua vida serem mortos na sua frente, quando você podia evitar. Harry faz a escolha certa, e mesmo assim paga. Daniel nunca esteve melhor do que na cena do exorcismo, com um gesto, um olhar, ele se torna Voldemort, no outro volta a ser Harry. Novamente, tão rápido e violento que você mal percebe. Você mal respira. E o desfecho é tão desesperançoso que dá vontade de chorar. Chorar pela beleza, não pela tristeza.

Essa é a história básica do filme, mas algumas coisas ainda valem a pena mencionar. Talvez seja confuso entender porque eu afirmei que o terceiro filme é sobre sexo se é nesse que Harry finalmente beija a sem-gracinha Cho Chang. Bom, beijo sem química não significa nada, e se algo falta aos dois é isso. Já a Emma tem química até com um poste então encerro meu caso.

Voldemort é mais assustador quando não está presente, principalmente quando na batalha com Dumbledore fica claro que ele leva certa desvantagem. Gosto mais deles nos sonhos (e que cenas mais lado negro da força são aquelas). Mas eu gosto muito de todo o simbolismo do Voldemort rasgando o poster propagandista de Fudge. Um mau maior.

O filme é pontuado pelo silêncio e pela escuridão, o ritmo é fantástico, sem deixar de ter brincadeiras de câmera e referencias que só enriquecem, esse é um filme de verdade, não apenas uma adaptação de livro. O momento mais barulhento e colorido, protagonizado pelos gêmeos, é logo quebrado pela literal queda de Harry. E que cena é aquela! Sei que câmera lenta é brega, mais funciona tão bem ali! De novo, Emma Watson faz tão bem o papel de protetora.

Saí do filme sem fôlego e com gostinho de quero mais. Esse merece um lugar na estante.

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