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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Os Fidalgos da Casa Mourisca

- - - de _Renata, para o na Vitrine.


Esse post na verdade é uma resenha que eu tive que escrever sobre um dos livros do semestre de Romantismo Português. Não é exatamente uma recomendação, apesar de eu ter gostado do livro, mas mais uma análise feita a partir das teorias que estudamos na matéria.
Eu só vou colocar mesmo porque tem muito tempo que não publico nada xD
Não leiam se não quiserem. Nem vai ter figuras, porque eu não achei uma imagem decente relacionada no google.

Os Fidalgos da Casa Mourisca, escrito por Julio Diniz e publicado no ano de 1871 em Portugal, é categorizada como uma obra do romantismo luso, de grande importância para a literatura do país da península ibérica.

Mas em um plano mais político e social, esse livro possui vivo destaque. Com astúcia, qualidade descritiva, enredo interessante, personagens bem desenvolvidos e cenário palpável, o autor preconiza suas visões favoráveis ao liberalismo, a doutrina emergente e revolucionária da Europa do séc. XIX e deliberadamente critica a decadente aristocracia.

A história é narrada de maneira bela e sem linguagem rebuscada, mas ao mesmo tempo, exigindo do leitor vocabulário e interpretação de texto consistentes.

Em uma aldeia portuguesa, uma família fidalga se refugia por anos do fim do absolutismo, em uma mansão conhecida na região como Casa Mourisca.

O senhor da moradia é Dom Luis, nobre orgulhoso, exausto com a tristeza trazida pelos anos. Seu sofrimento maior encontra-se na perda da filha mais jovem, a pura e delicada Beatriz, falecida por doença na adolescência.

O lar reflete perfeitamente seu espírito conturbado. A propriedade nada produz, dependendo de recorrentes dívidas e hipotecas para, fragilmente, se sustentar. A responsabilidade das economias da casa recaem sobre o péssimo administrador, Padre Januário, morador por conveniência do local.

O protagonista do romance figura-se em Jorge, rapaz belo, maduro, de caráter admirável, estudioso e portador de profunda seriedade. É o filho mais velho de Dom Luis, e que ao observar a prosperidade das propriedades vizinhas, em grande contraste com a sua, prontifica-se a regularizar a situação, tornando-se o novo administrador econômico. Uma atitude como essa o rebaixa diante da nobreza, pois o trabalho é visto como função do homem comum, plebeu. A ajuda financeira para tal empreitada é fornecida por Tomé, um agricultor abastado, mas de origem humilde (outrora serviçal da própria Casa Mourisca) e que com esforço evoluiu.

Dentre outras figuras importantes do livro, estão Maurício, o irmão mais novo de Jorge, Berta, a filha de Tomé e Gabriela, a prima viúva da família fidalga.

Maurício é um jovem leviano e volúvel, facilmente impressionável. Diferente do irmão, ele possui hábitos supérfluos mas não é mau caráter. Berta espelha a imagem viva de Beatriz. Graças às condições financeiras do pai, cresceu educada em Lisboa, aprendendo a se portar como uma nobre, mas permanecendo humilde, gentil, delicada e pueril. Já Gabriela é uma mulher experiente da sociedade urbana. Sagaz, intuitiva e atenta, ela busca o melhor para sua família e para si.

Na obra em si, não há uma personagem antagonista principal, entrando em choque direto com Jorge e seus interesses. Há, no entanto, imagens antagônicas que podem ser identificadas. Os primos fidalgos do Cruzeiro, influenciando negativamente Maurício, estão entre essas imagens.

Por isso, todos os conflitos do livro, no fim, resolucionam-se através da argumentação e do diálogo, sem necessitar de batalhas dramáticas, mortes ou fugas.

Jorge e Berta, ao perceberem-se apaixonados, e sendo de classes diferentes, decidem reprimir tal sentimento e escondê-los de seus familiares. Dom Luis, com a força de sua teimosia e orgulho, abandona a Casa Mourisca ao descobrir sobre o empréstimo de Tomé. Esses dois arcos da história tornam-se as principais questões, aparentemente sem solução.

Ao final, uma redenção por parte de Dom Luis ocorre. Seu carinho por Berta, a qual o lembra muito Beatriz, o faz reconhecer que a nobreza não corre no sangue, e sim no espírito de uma pessoa. O casamento é celebrado e Jorge reconstrói, através do trabalho e com dedicação, a propriedade de sua família.

Na verdade, a narrativa toda de Fidalgos da Casa Mourisca é somente um pretexto para o embate entre as filosofias liberais e absolutistas, com a vitória óbvia do liberalismo. O narrador nos manipula a todo momento, através da metalinguagem e de palavras tendenciosas para que sintamos empatia pelos virtuosos Jorge e Berta, torcendo pela sua união e felicidade. Também procura incitar nossa rejeição pela nobreza, afundando-os em vícios e atitudes condenáveis tais como ócio e o jogo.

Gabriela é uma fidalga, mas partidária do liberalismo. Como suas ideias tendem para este lado, as suas ações minuciosamente premeditadas colaboram fortemente para o final harmonioso da obra. Gabriela é em realidade, o instrumento do narrador para o triunfo daquilo que ele considera o “bem”.

Os princípios liberais são exaltados a todo momento. Em uma cena memorável, o escritor português Almeida Garret, falecido alguns anos antes da publicação do livro, é citado entre um círculo de fidalgos decadentes. Pelas visões convergentes com a do próprio narrador, Garret é duramente criticado. Essa cena transborda ironia, provocando também verossimilhança. É como se o autor quissesse que seus personagens mais desprezíveis demonstrassem rancor por seu próprio criador.

Já Jorge, sofre a mais ilustre metarmofose. O labor é sua maior companhia, a concentração e o investimento de capital, seus aliados. A leitura de filósfos iluministas é seu guia. As conquistas de suas aspirações tornam-se para os leitores, inevitáveis.

Na última página do romance, Jorge é intencionalmente classificado como um burguês, um homem respeitado por todos e visto como um exemplo a ser seguido. As últimas linhas até retomam uma citação do início do livro, que mencionava tesouros dos mouros possivelmente escondidos debaixo do solo da casa. Esse tesouro transforma-se então em uma metáfora, desenterrada pelas mãos calejadas mas robustas de Jorge.

Mas grande vitória para o liberalismo, na obra, não está na transformação de um jovem nobre em um burguês competente, e sim na submissão de um ancião absolutista à “sublime” filosofia. Sem a quebra do caráter considerado reacionário de Dom Luís, incitada pelo carinho paradoxal dele por Berta (uma dama sem sangue azul), a mensagem de Júlio Diniz estaria incompleta. Não haveria êxito para o narrador se os amantes tivessem de fugir para realizar sua união ou se Dom Luís morresse antes de abençoar as ações burguesas do filho e o casamento entre as diferentes classes. Nesse ponto, o extremo é essencial: ou o liberalismo domina por completo, trazendo promessas de ventura, felicidade e prosperidade, ou não.

Porém, para atrair o público e espalhar suas ideologias, o autor necessitou escrever seu livro dentro dos padrões vigentes da literatura de seu tempo. Assim, Fidalgos da Casa Mourisca possui elementos distintos do romantismo português, tais como: exaltação da natureza e utilização desta para descrição de sentimentos basicamente egocêntricos como melancolia e nostalgia, idealização da mulher como ser virgem e pueril, dramaticidade nas ações e diálogos e indicações de sentimento nacionalista.

Inclusive, o Patético de Schiller encontra-se profundamente presente na narração. Sendo esse Patético considerado a repressão da emoção através da razão, o ímpeto de não revelar a ninguém, não importando o esforço, o que se passa no interior sentimental da personagem, Jorge e Berta encaixam-se perfeitamente no perfil.

Ele, ao perceber o início de amor que o simples pensamento nela lhe causava, passou a evitá-la ao máximo, concentrando-se em estudos, viagens ou qualquer outra coisa. Seu físico quase não aguentou, ficando em determinado ponto da obra, doente. Já Berta, ao percebe-se apaixonada por Jorge e sem compreender a frieza dele para com ela, aceita um pedido de casamento de outro homem, que mal conhecia. Depois, mesmo sabendo da reciprocidade que possuíam, os dois decidem que ela deve seguir com o casamento, pois acreditavam suas famílias jamais poderiam conceder o matrimônio.

Outra importante característica romântica de Jorge é o seu perfil de herói problemático. Um herói insatisfeito com o ambiente à sua volta, que sai em uma busca degradada, mas degradada de acordo com os valores vigentes. Uma empreitada burguesa em um ambiente nobre, como já visto, com certeza é considerado um ato de rebaixamento.

Por fim, é preciso lembrar que Fidalgos da Casa Mourisca foi escrito em uma época em que Portugal ainda em encontrava-se em uma transição socio-econômica. Para não insatisfazer parte do público leitor, inserido nessa transição, Júlio Diniz lapidou seu principal par romântico, procurando torná-lo verossímil e nivelado. Jorge é o nobre aburguesado. Berta é a burguesa com educação nobre. Sem esses elementos, o romance perderia boa parte de sua calculada e complexa confecção.

sábado, 24 de julho de 2010

Bastardos Inglórios

- - - de Rafael, para o na Vitrine.




(Contém spoilers)

Ok, com muito, muito atraso, vamos falar de Bastardos Inglórios. Para muitos a obra prima do diretor. Eu mesmo posso dizer que preferi à Kill Bill. Nem vi o segundo, mas só pelo ‘clima’ já deduzo o resultado. Mas vou tentar ser relevante, justamente trazendo o olhar de um não-adorador-de-Tarantino que sinceramente apreciou Bastardos Inglórios. Então vou tentar não dar uma de esperto.

Vamos direto pros personagens. Primeiro personagem fundamental: os diálogos. Juro que li pela internet gente falando que ‘os diálogos são muito compridos’ e que em cinema ‘mostrar vale mais que contar’. Pessoalmente, não concordo. Cinema é uma linguagem e se manifesta de qualquer jeito. Pra mim o Tarantino foi muito feliz em toda e qualquer palavra que aparece nesse filme. As redundâncias do filme – encenações de eventos anteriormente narrados – não me pareceram desnecessárias, tendo em vista o clima de tensão da narrativa. Sem esses pontos de apoio talvez o espectador não se sentisse confortável com o ritmo dos acontecimentos. E, sabe, no fim isso é uma questão muito mais estilística do que de qualidade. O Tarantino não ‘errou’ na dose do blábláblá: ele QUIS colocar o blábláblá ali. É diferente. Pra mim funcionou muito bem.

Próximas personagens fundamentais: a vingança e a violência. Confesso que não tenho estômago para isso (simples como 1 + 1 = 2). Mas ocorre no mesmo sentido: o Tarantino QUIS aquela violência ali, daquele jeito. Tem gente que gosta, eu acho desnecessária. De qualquer forma, me pareceu muito mais controlada e eficiente que em Kill Bill. Quer dizer, há uma justificativa muito mais convincente, sem com isso abrir mão do exagero e da banalização. E afinal, é um filme basicamente sobre vingança – a vingança natural contra um asco infundado (a história do rato), a vingança contra os alemães e, no final, uma vingança contra a própria história. Também já li pessoas dando a entender que a obra do Tarantino se trata de um ‘elogio à vingança’. Não sei se concordo. Não vejo Bastardos Inglórios como um filme que defende qualquer tipo de ideal do tipo ‘ah, os alemães mereceram mesmo’. Pra mim não é sobre isso. Pra mim é muito mais raso. Vingança é vingança, violência é violência. A diferença do lado A pro lado B é apenas circunstancial.

Não acho que seja um filme sobre a banalização da vingança. Também não vejo como um filme que a condena. É apenas um retrato, a vingança enquanto atividade humana. Nenhuma outra estrutura. Cara, eu sou super moralista. Adoro ver moral em tudo. Mas acho que a amoralidade do Tarantino tem seu valor. Leva a um nível de abstração necessário.

Agora, a vingança do diretor na hora que o Hitler morre! Meu Deus, isso foi sen-sa-cio-nal. Pra mim foi algo do tipo ‘Vou me vingar contra o sistema porque ele nos empurra goela abaixo que a gente tem que ter pena dos judeus e crucificar o Hitler. Vou me vingar criando um universo paralelo em que os judeus é que são os filhos da puta!’. Gênio. Aqui não consigo deixar meu lado moralista de lado. Pra mim é óbvio que a morte do Hitler significa ‘Injustiça é injustiça, não importa o lado e, portanto, as justificativas’. Mas é claro que o filme não é sobre isso. Esse é um clichê que está lá de adorno, assim como os estereótipos das personagens: é só pra lidar melhor com o público.

E eu acho que era basicamente isso o que eu queria comentar. O Tarantino é diferente porque ele consegue, através dos seus exageros e idiossincrasias, construir algo que não está na esfera do ‘certo e errado’ ou na edificação do caráter, sem ter também que apelar pra uma estrutura anti-heroína, de quebra de paradigmas, etc. É tudo sobre ser virtuosíssimo (em termos de narrativa e de técnica), envolvente e raso. Eu acho isso incrível e extremamente relevante. Não é uma questão de ‘apenas estar se referindo a outras obras’, como dizem alguns. Não, o Tarantino conseguiu espremer novidades de dentro da cultura pop. Merece todo o reconhecimento que ele tem.

Só continuo achando que os elementos compositivos dele não são aqueles que me agradam mais.

quinta-feira, 12 de março de 2009

As Questões de Watchmen

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

É comum dizer que um bom texto, seja um livro, um filme ou uma HQ, é bom quando nos põe a pensar, suscita dúvidas e questões pertinentes e, de certa forma, apura nossa visão de mundo. A obra de Alan Moore e Dave Gibbons sem dúvida se enquadra nesse perfil. Aqui, pretendo escrever um pouco sobre minha visão particular de quais são essas questões, e como compreender Watchmen, filme e HQ. Mais uma vez, não vou me preocupar em fazer uma apurada análise técnica. Escrevo para um público que tenha conhecimento do texto, pois podem haver spoilers (não muitos). Acredito que essa análise seja ainda mais valiosa para aqueles que apenas assistiram ao filme. Os que leram a HQ provavelmente já se confrontaram explicitamente com grande parte das questões abarcadas. No entanto, um releitura sempre ajuda a organizar o pensamento e consolidar nossas opiniões.

O principal objetivo de Watchmen chega a ser óbvio: a desconstrução do mito do super-herói, trazendo essas lendárias figuras para o mundo real. Não exatamente para o nosso mundo, mas para uma realidade paralela semelhante, diferindo apenas pelas consequências trazidas pela existência desses heróis. Tradicionalmente, o universo dos super-homens é o ambiente de personalidades linearizáveis, onde bem e mal não se misturam. Só de olhar é possível identificar bandidos e mocinhos. Na roupagem realista que Watchmen propõe, não há espaço para tais maniqueismos. Temos personagens humanas, nem sempre boas ou más, e sim tridimensionais. A primeira questão, então, que esse tipo de contexto propõe é:

Em um mundo como o nosso, qual seria o verdadeiro papel de um super-herói? Como lutar contra o mal quando ele não está mais tão convenientemente caracterizado por uma figura central, arqui-inimiga?

Os diferentes mascarados têm particulares respostas para essa questão. Mas não vou começar por essa discussão. Ainda estamos começando.

Antes de mais nada, é preciso se perguntar:

Por que no século XX* precisamos de super-heróis?

Bom, Super Homem, Capitão América e companhia nasceram do interesse político de vencer ideologicamente os soviéticos. Inspirados, então, no sonho americano de Justiça e Liberdade, divulgados por esses metalinguísticos personagens, surgem os “watchmen” (vigilantes), os combatentes do mal transportados para um mundo menos preto-e-branco, prontos para enfrentar o mal que existe dentro da própria América. A compreensão fundamental aqui é a de que nem o sistema político apregoado como o correto, a Democracia e as Leis, nem a Religião e nem o setor privado, e nem nada foi capaz de vencer misérias, desigualdades, preconceitos e violência. A sociedade da forma como ela foi concebida é simplesmente ineficiente no combate aos problemas sociais reais que maltratam principalmente, mas não só, as minorias (minorias que, em números, não têm nada de minoria). Por isso a crença em seres superiores designados para resolver os problemas sociais que os poderosos (preocupados com políticas publicitárias) não se mobilizam para tratar parece plausível em uma realidade caótica. Por isso a necessidade dos “watchmen”.

Mas, se por um lado, os heróis parecem necessários, por outro, seria absurdo e incoerente designar pessoas, seres humanos, para esse tipo de serviço. E o que aconteceria se pessoas comuns se dessem a esse trabalho? A resposta de Moore para essa questão é o próprio cenário de Watchmen, realista por necessidade de ser coerente. E o é. A genialidade do autor é justamente conseguir apresentar esse cenário como uma realidade plausível. Para os combatentes, motivos sobram: uns lutam por suas ideologias, outros são patrocinados por empresas, outros buscam fama e prestígio, a maioria apenas não bate muito bem da cabeça. Mas, que benefícios reais esses heróis humanos poderiam trazer à sociedade? Mesmo que eles tenham notáveis habilidades marciais, mesmo que eles tenham a tecnologia ao seu lado... Voltando ao início, como combater o mal?

Os vigilantes e suas batalhas pessoais

À primeira vista, o entre aspas “protagonista” Rorschach não parece lembrar nem de longe a algum herói dos antigos quadrinhos. No entanto, num universo menos complexo do que aquele em que vive o vigilante, teríamos na figura de Rorschach um super-homem fidedigno: em um mundo com a dicotomia bem-mal aparente e exposta, teríamos um personagem de código moral claro e inabalável, pronto para banir com as próprias mãos os indivíduos podres da sociedade. A visão de Rorschach é a de que não existem desculpas para os desvios de comportamento. Por sua história de vida, ele poderia ser o primeiro a se esconder atrás da máscara de vítima, como desculpa para qualquer mal que porventura viesse a cometer. No entanto, não é isso o que esconde a máscara de Rorschach. Nada, na forma como ele enxerga o mundo, lhe dá o direito de ser fraco. Ele faz o que deve ser feito (da forma como ele entende que deve). Ele não se dobra nem mesmo ao Estado, agindo na ilegalidade se preciso, por que acredita que sua missão precisa ser cumprida. Heroísmo? Obviamente! Dos melhores. Não agiria o Super Homem da mesma maneira? A impiedade e integridade de Rorschach aos seus próprios códigos é o que faz dele o mais heroico dos vigilantes. No entanto, colocando-nos frente a frente com nossas próprias fraquezas, esse personagem nos faz rever o conceito de Justiça. Qual o sentido de um código tão rigoroso quando todos somos mais ou menos fracos? Talvez seja o medo de aceitar nosso lado sombrio que nos impeça de compreender Rorschach em seu heroísmo, e perceber que todas as suas atitudes atrozes são motivadas pela concepção de justiça do mundo ocidental.

O que incomoda em Rorschach não é o fato de ele não ser o herói tradicional, mas justamente o fato de ele ser exatamente o que entendemos por herói. É claro que elementos compositivos importantes – sua aparência e seu total desprezo pela raça humana – fazem com que antipatias nasçam mais facilmente. Mas o importante é perceber que mesmo um Rorschach atraente e cheio de amor pra dar ainda cometeria erros terríveis, porque ele age centrado em suas próprias verdades e as leva adiante custe o que custar. Ninguém é dono da verdade, e um herói que faça sua própria moral valer, a despeito de outros, não passa de um intolerante e egocêntrico. Essa intolerância, no entanto, é a essência do herói, e a personalidade de Rorschach é uma peça fundamental no quebra-cabeça da trama.

E o que dizer do Comediante? O Comediante é um pacifista do plano psicológico. Ele, ao contrário de Rorschach e da maioria dos outros vigilantes, aceita o mal como parte integrante da natureza humana. Por isso, ele prefere não lutar, porque lutar contra o mal é lutar contra si mesmo. Ao contrário, ele se junta ao inimigo, fazendo da crueldade motivo de piada. Ele se permite atrocidades para se sentir em paz com sua natureza humana. O Comediante é o perfeito anti-herói, que acha uma piada a luta dos outros vigilantes.

Adrian Veidt, o Ozymandias, em certo momento da narrativa percebe o tom das piadas do Comediante, e atenta para o fato de o mal estar espalhado em todas as criaturas. Até então, ele era como os outros, engajado como Rorschach, mas capaz de enxergar a complexidade comportamental humana. Em nenhum momento, ele abandona a luta contra o mal, mas, ao se dar conta da natureza intrínseca da maldade, graças ao Comediante, Ozymandias percebe que seria preciso abandonar velhos princípios. A guerra contra o mal é uma guerra desleal e só pode ser vencida abandonando a visão romantizada de moral do super-herói. Adrian, o homem dito mais inteligente da Terra, é o primeiro a perceber que o herói humano seria incapaz de vencer na luta contra o mal, porque o mal não respeita nenhum código moral.

Impactos na Sociedade


Do ponto de vista social, a existência dos Homens Minuto (a primeira geração de vigilantes) é uma anomalia política sem tamanho. São pessoas que agem às escondidas, acima da lei e desrespeitando todas as conquistas democráticas históricas, ridicularizando o governo e a segurança nacional. No entanto, contando com o apoio da sociedade, são rapidamente incorporados ao sistema econômico, tornando-se celebridades e armas poderosas de publicidade. Espectral e Dollar Bill são perfeitos exemplos dessa nova tendência.

Não seria preciso nenhum grande evento para deixar claro que esses heróis eram, na verdade, grandes equívocos coletivos, motivados por ideologias artificiais. Logo começam os abusos e a dificuldade de identificar os homens por trás das máscaras cria uma casta social de irresponsabilizáveis; tiranos e nazistas fora da política. Mesmo que a maioria deles não agisse com crueldade, apenas a arbitrariedade que tinham poder para exercer já era suficiente para ameaçar a ordem social.

Super Poderes


A discussão precedente ganha nova dimensão com o surgimento do Dr. Manhattan. A pergunta agora é: e se um super-herói com super poderes realmente existisse? Alan Moore responde com outra pergunta: e se essa espécie de Super Homem fosse, da mesma forma como foram os Homens Minuto, incorporado pelo sistema político-econômico? Uma criatura super poderosa poderia, em teoria, funcionar como arma em uma guerra política, mas não na guerra contra o mal, porque, nas palavras de Jon, ela não possuiria o poder de “alterar a natureza humana”. É a visão do Comediante voltando à tona. A guerra contra o mal é uma guerra contra os homens. Apenas a humanidade poderia se salvar de si mesma.

É por isso que, na HQ, quem salva a Terra de uma 3ª Guerra Mundial é um herói humano, e não o Dr. Manhattan.

Além disso, fica clara na HQ a visão de Moore de que, quanto mais poder a humanidade detém, mais iminentes tornam-se os conflitos. Foi a existência do Dr. Manhattan que deixou a Terra à beira da guerra. O medo que Jon causava nos soviéticos era tamanho que não descartava-se a possibilidade de um ataque suicida. Fica no ar mais uma pergunta:

Que poderes um super-herói precisaria ter para garantir a paz? Mesmo no plano metafísico, esse perfil de herói existiria?

Rorschach versus Ozymandias

Todas essas perguntas não ficam sem solução. Ozymandias, com seu plano megalomaníaco e por métodos questionáveis consegue unir duas nações inimigas e acabar com a ameaça da guerra. Essa solução, no entanto, está longe de ser conclusiva. Personagens morrem, mas não ideologias. A breve mas suficiente discussão entre Ozymandias e Rorschach no final da trama é ainda repleta de quesões a serem pensadas. A forma como Ozymandias conduz os fatos baseia-se numa visão maquiavélica que não raro culminou em grandes injustiças históricas. Em verdade, apesar da Terra ter sido momentaneamente “salva”, não há garantias de que o mundo será um lugar melhor dali para frente. Aliás, não há sequer garantia de que ela vá durar mais dez anos. Terão, então, valido a pena todas as mentiras, todas as mortes, todas as arbitrariedades? Não estará a visão de Ozymandias apenas propagando os mesmos erros e preconceitos que deram origens à desigualdade e à guerra? O feito é notável, mas não haveria outra forma? A pergunta, na verdade, é secular: os fins justificam os meios?

A visão heróica e romântica de Rorschach é terminantemente contra essa “salvação” sangrenta e mentirosa; “sem acordos”, ele diz. Mas, estaria errado o seu ponto de vista apenas por parecer utópico? Afinal, quantas vezes ao longo da história os grades impasses tentaram ser resolvidos de forma honesta? O problema político de ações como o de Ozymandias é que, quase sempre, busca-se por meios imorais alcançar interesses particulares de poderosos. O mesmo não pode ser dito de Adrian Veidt, contudo, colocando na forma de outra pergunta secular: um erro justifica outro? É uma imagem forte quando Rorschach refere-se à morte como “mais um cadáver em sua fundação”. Talvez ele esteja propondo que um mundo melhor não se construa por grandes revoluções, mas por atitudes íntegras. Os fins não podem justificar os meios, porque todo final é uma ilusão. O futuro perfeito de Veidt é uma ilusão, e o que ele fez simplesmente não está correto.

Tantas questões filosóficas e existenciais em apenas 12 capítulos é realmente um mérito à parte, e, apesar de haver falhas, tanto no filme quanto na HQ, é mais que merecido o reconhecimento de Watchmen como uma grande obra, um marco na história dos quadrinhos. Àqueles que assistiram o filme, recomendo fortemente ler também a série impressa. A ambientação é feita de forma espetacular e essas questões todas são tratadas com muito mais cuidado que na versão cinematográfica, que, apesar de ser uma excelente adaptação do enredo de Watchmen, perde em profundidade de interpretação.



____
* Período da trama.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O ano em que meus pais saíram de férias

- - - de Tereza, para o na Vitrine.

Um filme sobre infância, futebol, judaísmo, repressão e ditadura. E de repente parece que você está assistindo um desses filmes sensíveis italianos sobre a guerra. O que faz sentido, porque eu sou da opinião que em termos emocionais e artísticos o que mais se aproxima da guerra pro Brasil, e talvez para a América do Sul, seja a ditadura. Por isso é um tema tão revisitado.

E apresenta algumas inovações. São poucas explosões, as catarses são silenciosas, poucas vezes óbvias, o que dá uma qualidade diferente pro filme. O Cao Hamburguer é um bom diretor, principalmente de imagens, ele sabe onde colocar a câmera, sabe o que filmar. E a fotografia é primorosa, o ritmo nervoso quando tem que ser e estático, quase agoniante quando é necessário.

O maior problema do filme, sinceramente, são as atuações. Ou melhor, os diálogos. Tem uns que são dificéis de engolir e você pensa que o problema são os atores. Mas não, porque assim que eles calam a boca e só reagem, o filme melhora 200%. Ainda bem que na maior parte do tempo é silencioso.

É um drama, sim, mas tem momentos muito engraçados. Graças a Deus não é daqueles dramalhões forçados.

Uma das coisas que mais me impressionou é o quanto a infância é bem retratada. Filmes costumam ter duas formas de tratamento, ou são crianças hiper precoces que tomam conta dos adultos ao seu redor, ou são debeis mentais que nunca tiveram educação, todos com idade mental de 3 anos. Aqui as crianças apresentadas parecem reais, lembram a minha infância e da dos meus amigos.

Por fim, a metáfora de que o goleiro quem deve estar sempre preparado, embora esteja sozinho até que é sutil. Um filme bom, que tinha potencial pra ser ótimo.


quinta-feira, 19 de julho de 2007

A Rainha

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


Título Original: The Queen
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Site Oficial: www.thequeen-movie.com
Direção: Stephen Frears


Morre a princesa de Gales, Diana, a lady Di, a princesa do povo. E você pensou que o assunto já estava saturado...

Em A Rainha, um dos filmes mais indicados ao Oscar 2006, nos é dado penetrar a intimidade da família real inglesa quando do acidente. Um filme que acaba por redimir, lógico, artisticamente falando, a frieza a qual a rainha Elizabeth II (Helen Mirren) apresentou ao seu povo, insensível à fatalidade; e, por que não?, por pouco não beatificou o recém-eleito Primeiro-Ministro Tony Blair (Michael Sheen).

Longe de qualquer conotação política, é um filme da vida privada da nobreza. Humano e singular acima de tudo. Não é à toa que A Rainha tenha rendido o Oscar de melhor atriz à H. Mirren. De forma belíssima, a personagem principal toma vida na produção. Uma mulher que parece não existir em seus conceitos e fragilidade. Parece não caber no mundo, quando nasceu rainha e mostra uma estranha simpatia ao ato de votar. Talvez até o quisesse, só por experimentar. E, pasmem, até chora.

Não. Não o vejo como um filme político. Vejo-o como a experiência de uma vida irreal, ou não vivível.

Imperdível.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Zuzu Angel

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

"Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho"


Título Original: Zuzu Angel
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 110 minutos
Site Oficial: www.zuzuangelofilme.com.br
Direção: Sérgio Rezende


Outra pedida nacional. A história real de uma estilista de moda brasileira que perde o filho para a ditadura militar. Ela, a típica cidadã de classe média; ele, o típico adolescente rebelde e idealista. A dor da perda se torna tão grande para Zuleika Angel Jones, a Zuzu Angel (Patrícia Pillar), que, inconformada com a arbitrariedade e o descaso do Estado, acaba também tentando fazer justiça, denunciando as atrocidades que acometeram seu filho.

O filme tem o mesmo clima de Olga, exatamente o mesmo; inclusive o ar de que poderia ter sido bem melhor, bem mais profundo e menos televisivo. Talvez mais estiloso visualmente, destacando cores fortes. Mas não consigo destacar nada de formidável na adaptação. Apenas a própria história de vida dessa mulher.

Minto: os créditos iniciais são de real beleza estética.

No final, é apenas mais um bom filme da Globo.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Jô Soares: escritor.

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

O botija mais simpático (leia-se pernóstico) da TV adentrou pelo cerebrino mar da literatura e, pela nobilíssima Companhia das Letras, lançou duas obras primazes.



Acho que me saí bem dando uma de Jô Soares. Quem sabe. Dizem que estilo não se discute...

Independente do vocabulário, eu não diria rebuscado, mas arcaico mesmo, mal-usado e de estrutura repetitiva, O Xangô de Baker Street e O Homem que Matou Getúlio Vargas conseguem, ainda assim, um lugar ao sol. Eu mesmo gostei bastante de ambos. Até cheguei a rir em alguns momentos. Mas, sinceramente, ô carinha enjoado esse Jô!

O Xangô de Baker Street é um delicioso "romance cômico-policial", desenrolado no Rio de Janeiro do século XIX.
Quando um violino Stradivarius é roubado , deixando o imperador dom Pedro II em maus lençóis, sua famosa amiga Sarah Bernhardt o indica um não menos famoso detetive: Sherlock Holmes. Isso mesmo, as lendárias personagens de sir A. Conan Doyle vêm parar em terras tupiniquins para desvendar os crimes do primeiro serial killer da história. Trazendo de forma fictícia-porém-real personalidades como Chiquinha Gonzaga e Olavo Bilac, Jô faz uma reconstrução bastante plausível do passado de nosso país e até das possíveis origens de certas particularidades brasileiras, como a inesperada invenção da caipirinha pelo doutor Watson. A mistura de realidade e ficção caiu muito bem. Além da paródia à literatura policial. No entanto, devido aos motivos expostos acima, o filme é melhor.





Apesar de ser defendido como o livro da maturidade de Jô, O Homem que Matou Getúlio Vargas me parece, porém, ainda mais tolamente rebuscado que O Xangô. Entendam. Eu não tenho problemas com palavras difíceis. Eu tenho problemas com pessoas que se metem a falar difícil sem necessidade. Exemplo: o livro, outra paródia, agora ao estilo bibliográfico, conta as memórias de um anarquista chamado Dimitri Borja Korozec. Certo. Quis o destino que tal protagonista tenha nascido com um indicador a mais em cada mão, logo, o anarquista tem 12 dedos. O nosso amigo Jô, cansado de escrever a palavra "dedo", assim escreveu: "...era causado pelo fato de ele ter doze artelhos." (pág. 169) Quem estiver com dicionários, que não me deixe mentir, porque "artelho" significa podáctilo, ou dedo do pé. Asseguro que a essa parte do livro eu nem lembrava mais dessa peculiar característica. Se ele escrevesse dedo não incomodaria vivalma. Não. Preferiu escrever besteira.
O livro é quase tão divertido quanto o anterior, pelos mesmos motivos. Dimitri é um assassino de tiranos extremamente azarado. Teria sido ele quem quase matou o arquiduque Francisco Ferdinando, o presidente Roosevelt... Além de topar outras personalidades como Marie Curie e Al Capone. Ótima reconstrução épica e engraçado em certos pontos.

Aliás, que o cara é inteligente, disso poucos teriam dúvida. E, no final, eu acredito que o saldo seja positivo. É um livro pra se ler, guardar, e depois, nunca mais. Tenho dito.

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