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sábado, 24 de julho de 2010

Bastardos Inglórios

- - - de Rafael, para o na Vitrine.




(Contém spoilers)

Ok, com muito, muito atraso, vamos falar de Bastardos Inglórios. Para muitos a obra prima do diretor. Eu mesmo posso dizer que preferi à Kill Bill. Nem vi o segundo, mas só pelo ‘clima’ já deduzo o resultado. Mas vou tentar ser relevante, justamente trazendo o olhar de um não-adorador-de-Tarantino que sinceramente apreciou Bastardos Inglórios. Então vou tentar não dar uma de esperto.

Vamos direto pros personagens. Primeiro personagem fundamental: os diálogos. Juro que li pela internet gente falando que ‘os diálogos são muito compridos’ e que em cinema ‘mostrar vale mais que contar’. Pessoalmente, não concordo. Cinema é uma linguagem e se manifesta de qualquer jeito. Pra mim o Tarantino foi muito feliz em toda e qualquer palavra que aparece nesse filme. As redundâncias do filme – encenações de eventos anteriormente narrados – não me pareceram desnecessárias, tendo em vista o clima de tensão da narrativa. Sem esses pontos de apoio talvez o espectador não se sentisse confortável com o ritmo dos acontecimentos. E, sabe, no fim isso é uma questão muito mais estilística do que de qualidade. O Tarantino não ‘errou’ na dose do blábláblá: ele QUIS colocar o blábláblá ali. É diferente. Pra mim funcionou muito bem.

Próximas personagens fundamentais: a vingança e a violência. Confesso que não tenho estômago para isso (simples como 1 + 1 = 2). Mas ocorre no mesmo sentido: o Tarantino QUIS aquela violência ali, daquele jeito. Tem gente que gosta, eu acho desnecessária. De qualquer forma, me pareceu muito mais controlada e eficiente que em Kill Bill. Quer dizer, há uma justificativa muito mais convincente, sem com isso abrir mão do exagero e da banalização. E afinal, é um filme basicamente sobre vingança – a vingança natural contra um asco infundado (a história do rato), a vingança contra os alemães e, no final, uma vingança contra a própria história. Também já li pessoas dando a entender que a obra do Tarantino se trata de um ‘elogio à vingança’. Não sei se concordo. Não vejo Bastardos Inglórios como um filme que defende qualquer tipo de ideal do tipo ‘ah, os alemães mereceram mesmo’. Pra mim não é sobre isso. Pra mim é muito mais raso. Vingança é vingança, violência é violência. A diferença do lado A pro lado B é apenas circunstancial.

Não acho que seja um filme sobre a banalização da vingança. Também não vejo como um filme que a condena. É apenas um retrato, a vingança enquanto atividade humana. Nenhuma outra estrutura. Cara, eu sou super moralista. Adoro ver moral em tudo. Mas acho que a amoralidade do Tarantino tem seu valor. Leva a um nível de abstração necessário.

Agora, a vingança do diretor na hora que o Hitler morre! Meu Deus, isso foi sen-sa-cio-nal. Pra mim foi algo do tipo ‘Vou me vingar contra o sistema porque ele nos empurra goela abaixo que a gente tem que ter pena dos judeus e crucificar o Hitler. Vou me vingar criando um universo paralelo em que os judeus é que são os filhos da puta!’. Gênio. Aqui não consigo deixar meu lado moralista de lado. Pra mim é óbvio que a morte do Hitler significa ‘Injustiça é injustiça, não importa o lado e, portanto, as justificativas’. Mas é claro que o filme não é sobre isso. Esse é um clichê que está lá de adorno, assim como os estereótipos das personagens: é só pra lidar melhor com o público.

E eu acho que era basicamente isso o que eu queria comentar. O Tarantino é diferente porque ele consegue, através dos seus exageros e idiossincrasias, construir algo que não está na esfera do ‘certo e errado’ ou na edificação do caráter, sem ter também que apelar pra uma estrutura anti-heroína, de quebra de paradigmas, etc. É tudo sobre ser virtuosíssimo (em termos de narrativa e de técnica), envolvente e raso. Eu acho isso incrível e extremamente relevante. Não é uma questão de ‘apenas estar se referindo a outras obras’, como dizem alguns. Não, o Tarantino conseguiu espremer novidades de dentro da cultura pop. Merece todo o reconhecimento que ele tem.

Só continuo achando que os elementos compositivos dele não são aqueles que me agradam mais.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Harry Potter and The Half Blood Prince


- - - de Renata_, para o na Vitrine.



Harry Potter and The Half Blood Prince. Um filme de esforços. Um bom filme, bem feito, com linguagem rica e bela. Mas definitivamente, abarrotado de esforços.

Esforço número 1: fazer da personagem Gina Weasley uma garota bonita, interessante, notável, sexy, divertida, etc. Ela aparecia em qualquer cena possível de se aparecer, fazendo comentários espirituosos, colocando moral na galera do quadribol, sendo a primeira a perceber a presença de Harry na toca, amarrando cardarços alheios (lição para as solteiras de plantão: mostre-se disposta abaixar-se aos pés do homem que você ama), fazendo uma brincadeira sensual de esconde-esconde em um salão escuro e por aí vai. Aliás, foi um esforço tão óbvio que criaram uma cena especial de Natal, onde a toca é destruída por dois comensais desocupados, só para ela e Harry fortaleceram seu laço de amor eterno, um tentado salvar o outro.

Esforço número 2: Como o livro não possue tantas cenas de ação, e sim mais diálogo, para manter a atenção do pública viva, HBP tornou-se o filme mais engraçado até agora. Onde era possível inserir uma piada, eles nao hesitavam. O que não é necessariamente uma coisa ruim, porque as piadas possuiam certa qualidade e os atores as desenvolveram bem. Oh, well.

Esforço número 3: Manter Harry e Draco nos arcos principais da história. Foi na verdade, um filme sobre os dois, cada um com seu sofrimento e problemas. Hermione só aparecia para chorar, Ron só aparecia, para ahm, ser o Ron. Draco por sua vez, se arrastava pelos cantos do castelo, a mente em turbilhão. Achei que Tom Felton desenvolveu muito bem essa emice, até mandei um recadinho no Twitter para ele falando isso, entre os outros duzentos milhões que ele deve ter recebido desde a estréia do filme. Daniel Radcliff, ahm, fez o de sempre.

Agora, o que me incomodou, verdadeiramente. Primeiro, aquele Dumbledore obtuso que foi criado no filme. Nos livros, Dumbledore é nossa figura de estabilidade, serenidade, nosso porto seguro. Nos filmes, temos aquela criatura epilética e irritante. Eu o detesto, profundamente. Aí o que acontece... No livro, a cena da bebida da poção para se obter a Horcrux causa grande desespero para os leitores, porque Dumbledore mostra-se pela primeira vez, vulnerável e fraco. No filme, daquele ser patético, é mesmo de ser esperar um atitude assim. Uma cena que deveria causar agonia, desconforto e até desespero, tornou-se fraca, plana, totalmente sem-graça.

Outro incômodo meu: todo o conceito e origem das Horcruxs ficaram jogados e mal-explicados. Para quem não leu os livros, pode rolar uma dúvida que provalvemente será explicada por aqueles que leram. É normalmente assim que acontece.

Cortes de cenas dos livros são normais, necessários. Mas eu achei uma pena retirarem as partes que explicam a origem da famíla de Voldemort, como ele foi concebido, porque ele morava em um orfanato, e por aí vai. Para mim, é um dos detalhes mais interessantes da série toda e desvalorizá-los assim é uma verdadeira perda. É uma parte muito rica dos livros.

Gostaria de destacar minha predileção pela cena em que Harry bebe a poção Felix Felicis e participa do velório da aranha gigante. Para mim, foi a mais bem feita e bonita. Uma música ao fundo, Slughorn declamando belas palavras e Daniel Radcliffe em sua melhor interpretação de um usuário de drogas psicotrópicas. Na verdade, acho que ele não interpretou de todo, alguma experiência própria está estampada ali, no olhar desencontrado de Harry. Genial.

Menção honrosa para Lilá/Lavender Brown e seus sábios ensinamentos de como perder um homem, Luna Lovegood ao resgate, em seu vestido feito com os restos daquela porcaria que Hermione usou no baile do 4o filme, Bellatrix e seu lema "eu quero ver o oco" (quem não entendeu, me pergunte depois), mamãe Narcissa e seu cabelo de Pepé Le Pew, e ah, Snape. Maravilhoso, profundo, misterioso, genial, Snape.

Há quem reclame das cenas finais. O funeral teria sido interessante de se ver, figuras importantes dos livros, mas não foi uma perda total. Mas Snape gritando "DON'T CALL ME COWARD, POTTER!" com o fogo da casa de Hagrid como fundo também fez falta, é um momento de forte intensidade no livro.

No geral, foi um filme bom. Não foi o melhor, muito menos o pior.

Na verdade, aumentou minha vontade para os próximos dois. Esses sim, quero só ver como vão ficar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Documentário: Pro dia nascer feliz

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


"Às vezes eu acho que é um pouco violento esse jeito como se vive: as pessoas têm que deixar de lado aquilo em que acreditam para se conservar vivas."
MAYSA, 16 anos
"Eu tenho medo de coisas, assim, totalmente complexas e grandiosas, como o medo da morte, o que acontece depois da vida, quem sou eu, o que vai acontecer comigo."
THAIS, 15 anos
"Eu deveria ter uma péssima impressão da vida se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver."
VALÉRIA, 16 anos


Com seu estilo solto, uma visão aparentemente imparcial e depoimentos com assuntos para lá de aleatórios, o documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim, constitui-se como um verdadeiro vitral, onde a realidade da educação brasileira é mostrada tão íntima quanto seria possível. Na verdade, a coerência que adquire decorre principalmente de sua não objetividade e, assim, fica clara a visão que a pedagogia vem disseminando, de que o momento escolar não é parte da vida, mas a própria vida de milhares de estudantes.

O ponto de apoio estrutural da narração é o famoso conflito educação pública/educação particular. São três os principais estabelecimentos de ensino que pude distinguir claramente como locus de pesquisa: uma escola pública de condições precárias, em uma das cidades mais miseráveis do país; uma escola pública de alta qualidade, equiparável em resultados com escolas da rede particular; e, por fim, uma escola particular de classe alta na grande São Paulo. Nestes contextos contrastantes, as câmeras nos levam pela vida dos estudantes a eles submetidos, pelo trajeto casa-escola, escola-casa de crianças reféns da rotina, pelos sonhos e discursos destes jovens, pelos medos, inseguranças, por suas conquistas e decepções.

A escola nem sempre está em primeiro plano nas problematizações postas, mas está sempre por ali, mesmo que em segundo plano, atestando sua influência onipresente. E o que se pode perceber facilmente é que, apesar de sua pretensão, a escola não dá segurança de futuro para nenhum dos jovens entrevistados. Não é que sua influência seja sempre atacada e estigmatizada. Não, em muitos momentos, é possível mesmo identificar processos em que a escola se torna protagonista, trazendo contato pessoal e metas, dando significado à vida de seus discentes. No entanto, ela parece uma instituição sempre deslocada, sempre artificial, levando o aluno para universos que não são seus e que talvez nem lhe interessem.

A complexidade de articulações é ainda evidenciada quando é dada voz também aos professores, tantas vezes recriminados e apresentados de forma vilanesca. Não é possível, é claro, retirar das mãos destes profissionais a responsabilidade por seus atos – responsabilidade esta muito grande, por sinal. Mas também não se pode negar a desvalorização injusta e a perda total de dignidade deste setor tão importante numa sociedade como esta em que vivemos.

Por fim, são o foco abrangente e a pluralidade de situações que conferem a este documentário a notoriedade que merece. É quando a escola é mostrada em sua essência mais humana, mais encrustada na vida de tanta gente ao mesmo tempo, mostrada mesma como reflexo e simultaneamente causa de uma sociedade desigual e cruel, mascarada e hipócrita; é apenas assim que se pode imaginar (porque ainda assim, definir me parece impossível) a abrangência deste poder instituído, a força deste personagem tão presente cultural e socialmente ao longo da história.

É assim que crítica e elogio foram atingidos com igual sutileza e importância.


(Essa é uma resenha que fiz ano passado, para a aula de didática. Reli agora, depois de uma conversa breve sobre o filme com a Marina, e achei propício. Se puderem, assistam.)

quinta-feira, 12 de março de 2009

As Questões de Watchmen

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

É comum dizer que um bom texto, seja um livro, um filme ou uma HQ, é bom quando nos põe a pensar, suscita dúvidas e questões pertinentes e, de certa forma, apura nossa visão de mundo. A obra de Alan Moore e Dave Gibbons sem dúvida se enquadra nesse perfil. Aqui, pretendo escrever um pouco sobre minha visão particular de quais são essas questões, e como compreender Watchmen, filme e HQ. Mais uma vez, não vou me preocupar em fazer uma apurada análise técnica. Escrevo para um público que tenha conhecimento do texto, pois podem haver spoilers (não muitos). Acredito que essa análise seja ainda mais valiosa para aqueles que apenas assistiram ao filme. Os que leram a HQ provavelmente já se confrontaram explicitamente com grande parte das questões abarcadas. No entanto, um releitura sempre ajuda a organizar o pensamento e consolidar nossas opiniões.

O principal objetivo de Watchmen chega a ser óbvio: a desconstrução do mito do super-herói, trazendo essas lendárias figuras para o mundo real. Não exatamente para o nosso mundo, mas para uma realidade paralela semelhante, diferindo apenas pelas consequências trazidas pela existência desses heróis. Tradicionalmente, o universo dos super-homens é o ambiente de personalidades linearizáveis, onde bem e mal não se misturam. Só de olhar é possível identificar bandidos e mocinhos. Na roupagem realista que Watchmen propõe, não há espaço para tais maniqueismos. Temos personagens humanas, nem sempre boas ou más, e sim tridimensionais. A primeira questão, então, que esse tipo de contexto propõe é:

Em um mundo como o nosso, qual seria o verdadeiro papel de um super-herói? Como lutar contra o mal quando ele não está mais tão convenientemente caracterizado por uma figura central, arqui-inimiga?

Os diferentes mascarados têm particulares respostas para essa questão. Mas não vou começar por essa discussão. Ainda estamos começando.

Antes de mais nada, é preciso se perguntar:

Por que no século XX* precisamos de super-heróis?

Bom, Super Homem, Capitão América e companhia nasceram do interesse político de vencer ideologicamente os soviéticos. Inspirados, então, no sonho americano de Justiça e Liberdade, divulgados por esses metalinguísticos personagens, surgem os “watchmen” (vigilantes), os combatentes do mal transportados para um mundo menos preto-e-branco, prontos para enfrentar o mal que existe dentro da própria América. A compreensão fundamental aqui é a de que nem o sistema político apregoado como o correto, a Democracia e as Leis, nem a Religião e nem o setor privado, e nem nada foi capaz de vencer misérias, desigualdades, preconceitos e violência. A sociedade da forma como ela foi concebida é simplesmente ineficiente no combate aos problemas sociais reais que maltratam principalmente, mas não só, as minorias (minorias que, em números, não têm nada de minoria). Por isso a crença em seres superiores designados para resolver os problemas sociais que os poderosos (preocupados com políticas publicitárias) não se mobilizam para tratar parece plausível em uma realidade caótica. Por isso a necessidade dos “watchmen”.

Mas, se por um lado, os heróis parecem necessários, por outro, seria absurdo e incoerente designar pessoas, seres humanos, para esse tipo de serviço. E o que aconteceria se pessoas comuns se dessem a esse trabalho? A resposta de Moore para essa questão é o próprio cenário de Watchmen, realista por necessidade de ser coerente. E o é. A genialidade do autor é justamente conseguir apresentar esse cenário como uma realidade plausível. Para os combatentes, motivos sobram: uns lutam por suas ideologias, outros são patrocinados por empresas, outros buscam fama e prestígio, a maioria apenas não bate muito bem da cabeça. Mas, que benefícios reais esses heróis humanos poderiam trazer à sociedade? Mesmo que eles tenham notáveis habilidades marciais, mesmo que eles tenham a tecnologia ao seu lado... Voltando ao início, como combater o mal?

Os vigilantes e suas batalhas pessoais

À primeira vista, o entre aspas “protagonista” Rorschach não parece lembrar nem de longe a algum herói dos antigos quadrinhos. No entanto, num universo menos complexo do que aquele em que vive o vigilante, teríamos na figura de Rorschach um super-homem fidedigno: em um mundo com a dicotomia bem-mal aparente e exposta, teríamos um personagem de código moral claro e inabalável, pronto para banir com as próprias mãos os indivíduos podres da sociedade. A visão de Rorschach é a de que não existem desculpas para os desvios de comportamento. Por sua história de vida, ele poderia ser o primeiro a se esconder atrás da máscara de vítima, como desculpa para qualquer mal que porventura viesse a cometer. No entanto, não é isso o que esconde a máscara de Rorschach. Nada, na forma como ele enxerga o mundo, lhe dá o direito de ser fraco. Ele faz o que deve ser feito (da forma como ele entende que deve). Ele não se dobra nem mesmo ao Estado, agindo na ilegalidade se preciso, por que acredita que sua missão precisa ser cumprida. Heroísmo? Obviamente! Dos melhores. Não agiria o Super Homem da mesma maneira? A impiedade e integridade de Rorschach aos seus próprios códigos é o que faz dele o mais heroico dos vigilantes. No entanto, colocando-nos frente a frente com nossas próprias fraquezas, esse personagem nos faz rever o conceito de Justiça. Qual o sentido de um código tão rigoroso quando todos somos mais ou menos fracos? Talvez seja o medo de aceitar nosso lado sombrio que nos impeça de compreender Rorschach em seu heroísmo, e perceber que todas as suas atitudes atrozes são motivadas pela concepção de justiça do mundo ocidental.

O que incomoda em Rorschach não é o fato de ele não ser o herói tradicional, mas justamente o fato de ele ser exatamente o que entendemos por herói. É claro que elementos compositivos importantes – sua aparência e seu total desprezo pela raça humana – fazem com que antipatias nasçam mais facilmente. Mas o importante é perceber que mesmo um Rorschach atraente e cheio de amor pra dar ainda cometeria erros terríveis, porque ele age centrado em suas próprias verdades e as leva adiante custe o que custar. Ninguém é dono da verdade, e um herói que faça sua própria moral valer, a despeito de outros, não passa de um intolerante e egocêntrico. Essa intolerância, no entanto, é a essência do herói, e a personalidade de Rorschach é uma peça fundamental no quebra-cabeça da trama.

E o que dizer do Comediante? O Comediante é um pacifista do plano psicológico. Ele, ao contrário de Rorschach e da maioria dos outros vigilantes, aceita o mal como parte integrante da natureza humana. Por isso, ele prefere não lutar, porque lutar contra o mal é lutar contra si mesmo. Ao contrário, ele se junta ao inimigo, fazendo da crueldade motivo de piada. Ele se permite atrocidades para se sentir em paz com sua natureza humana. O Comediante é o perfeito anti-herói, que acha uma piada a luta dos outros vigilantes.

Adrian Veidt, o Ozymandias, em certo momento da narrativa percebe o tom das piadas do Comediante, e atenta para o fato de o mal estar espalhado em todas as criaturas. Até então, ele era como os outros, engajado como Rorschach, mas capaz de enxergar a complexidade comportamental humana. Em nenhum momento, ele abandona a luta contra o mal, mas, ao se dar conta da natureza intrínseca da maldade, graças ao Comediante, Ozymandias percebe que seria preciso abandonar velhos princípios. A guerra contra o mal é uma guerra desleal e só pode ser vencida abandonando a visão romantizada de moral do super-herói. Adrian, o homem dito mais inteligente da Terra, é o primeiro a perceber que o herói humano seria incapaz de vencer na luta contra o mal, porque o mal não respeita nenhum código moral.

Impactos na Sociedade


Do ponto de vista social, a existência dos Homens Minuto (a primeira geração de vigilantes) é uma anomalia política sem tamanho. São pessoas que agem às escondidas, acima da lei e desrespeitando todas as conquistas democráticas históricas, ridicularizando o governo e a segurança nacional. No entanto, contando com o apoio da sociedade, são rapidamente incorporados ao sistema econômico, tornando-se celebridades e armas poderosas de publicidade. Espectral e Dollar Bill são perfeitos exemplos dessa nova tendência.

Não seria preciso nenhum grande evento para deixar claro que esses heróis eram, na verdade, grandes equívocos coletivos, motivados por ideologias artificiais. Logo começam os abusos e a dificuldade de identificar os homens por trás das máscaras cria uma casta social de irresponsabilizáveis; tiranos e nazistas fora da política. Mesmo que a maioria deles não agisse com crueldade, apenas a arbitrariedade que tinham poder para exercer já era suficiente para ameaçar a ordem social.

Super Poderes


A discussão precedente ganha nova dimensão com o surgimento do Dr. Manhattan. A pergunta agora é: e se um super-herói com super poderes realmente existisse? Alan Moore responde com outra pergunta: e se essa espécie de Super Homem fosse, da mesma forma como foram os Homens Minuto, incorporado pelo sistema político-econômico? Uma criatura super poderosa poderia, em teoria, funcionar como arma em uma guerra política, mas não na guerra contra o mal, porque, nas palavras de Jon, ela não possuiria o poder de “alterar a natureza humana”. É a visão do Comediante voltando à tona. A guerra contra o mal é uma guerra contra os homens. Apenas a humanidade poderia se salvar de si mesma.

É por isso que, na HQ, quem salva a Terra de uma 3ª Guerra Mundial é um herói humano, e não o Dr. Manhattan.

Além disso, fica clara na HQ a visão de Moore de que, quanto mais poder a humanidade detém, mais iminentes tornam-se os conflitos. Foi a existência do Dr. Manhattan que deixou a Terra à beira da guerra. O medo que Jon causava nos soviéticos era tamanho que não descartava-se a possibilidade de um ataque suicida. Fica no ar mais uma pergunta:

Que poderes um super-herói precisaria ter para garantir a paz? Mesmo no plano metafísico, esse perfil de herói existiria?

Rorschach versus Ozymandias

Todas essas perguntas não ficam sem solução. Ozymandias, com seu plano megalomaníaco e por métodos questionáveis consegue unir duas nações inimigas e acabar com a ameaça da guerra. Essa solução, no entanto, está longe de ser conclusiva. Personagens morrem, mas não ideologias. A breve mas suficiente discussão entre Ozymandias e Rorschach no final da trama é ainda repleta de quesões a serem pensadas. A forma como Ozymandias conduz os fatos baseia-se numa visão maquiavélica que não raro culminou em grandes injustiças históricas. Em verdade, apesar da Terra ter sido momentaneamente “salva”, não há garantias de que o mundo será um lugar melhor dali para frente. Aliás, não há sequer garantia de que ela vá durar mais dez anos. Terão, então, valido a pena todas as mentiras, todas as mortes, todas as arbitrariedades? Não estará a visão de Ozymandias apenas propagando os mesmos erros e preconceitos que deram origens à desigualdade e à guerra? O feito é notável, mas não haveria outra forma? A pergunta, na verdade, é secular: os fins justificam os meios?

A visão heróica e romântica de Rorschach é terminantemente contra essa “salvação” sangrenta e mentirosa; “sem acordos”, ele diz. Mas, estaria errado o seu ponto de vista apenas por parecer utópico? Afinal, quantas vezes ao longo da história os grades impasses tentaram ser resolvidos de forma honesta? O problema político de ações como o de Ozymandias é que, quase sempre, busca-se por meios imorais alcançar interesses particulares de poderosos. O mesmo não pode ser dito de Adrian Veidt, contudo, colocando na forma de outra pergunta secular: um erro justifica outro? É uma imagem forte quando Rorschach refere-se à morte como “mais um cadáver em sua fundação”. Talvez ele esteja propondo que um mundo melhor não se construa por grandes revoluções, mas por atitudes íntegras. Os fins não podem justificar os meios, porque todo final é uma ilusão. O futuro perfeito de Veidt é uma ilusão, e o que ele fez simplesmente não está correto.

Tantas questões filosóficas e existenciais em apenas 12 capítulos é realmente um mérito à parte, e, apesar de haver falhas, tanto no filme quanto na HQ, é mais que merecido o reconhecimento de Watchmen como uma grande obra, um marco na história dos quadrinhos. Àqueles que assistiram o filme, recomendo fortemente ler também a série impressa. A ambientação é feita de forma espetacular e essas questões todas são tratadas com muito mais cuidado que na versão cinematográfica, que, apesar de ser uma excelente adaptação do enredo de Watchmen, perde em profundidade de interpretação.



____
* Período da trama.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Slumdog Millionaire


- - - de Renata_, para o na Vitrine.


Então, o vencendor do oscar 2009.

Bonito? Sim.
Comovente? Sim.
Envolvente? Sim.
Bem feito? Sim.


Surpreendente? Não.
Inovador? Não.

Tinha um comichão me incomodando durante todo o filme. Um comichão que me dizia: você já viu/leu/ouviu essa história antes. E é óbvio que você sabe o final.

Não é surpresa que Slumdog ganhou o prêmio de melhor filme. Porque ele não ganharia? Ele possui a fórmula exata, que funciona entre nós mortais, por séculos a fio.

É muito simples: Crie um herói, tão nobre quanto Ivanhoé, tão apaixonado quanto Romeu, com a infância tão trágica quanto... sei lá, a do menino do "Parada 174", uma heróina tão bela e pura quanto qualquer princesa adormecida e adicione o destino determinado a consagrá-los com um feliz para sempre. Gente, que membros da Academia não derretem diante disso?

Sabem o que vi na tela? Alladin do século XXI. E Alladin da Disney mesmo, porque o conto original tem mais suor e sangue. Não me levem a mal, eu AMO Alladin, mas com a plena noção de que entre a Moreninha e a Jasmim não há muita diferença, além de alguns miolos (para a Jasmim, obviamente) e a própria etnia das duas.
Jamal-Alladin "ladrão lalau, eu não sou não! É que na realidade, eu sou só pobre. Alladin... Quem há de dizer, que há muito mais, em mimmmmm!" passou por muitas dificuldade para chegar à cena inicial do filme. Cada momento de sua vida é uma "denúncia social" das violações dos direitos humanos, ambientais, sociais, animais, científicos, sociológicos, antropológicos e tudo mais que é possível de ser violado.
Alladin conhece Jasmim, Alladin não pode ter Jasmim. - Jamal conhece Latika, Jamal não pode ter Latika.
Alladin acha a lâmpada - Jamal entra no show do milhão indiano.
Alladin perde a lâmpada para Jafar - Duvidam da capacidade de Jamal de estar ganhando o jogo honestamente.
Alladin com a ajuda do bem, vence Jafar, liberta o gênio e fica com Jasmim. Eventualmente Alladin se muda para o palácio assim como também eventualmente se tornará sultão, deixando toda uma vida de pobreza e sofrimento para trás. Living Happily ever after.
Jamal não se sai muito diferente.

Não estou exigindo quedas de sistemas, nem quebra das castas, nem que o governo indiano seja derrubado. Muito menos desejo que Jamal tivesse perdido na pergunta final, paraque o fim fosse mais real. Também não estou desvalorizando o tom narrativo do filme. Na verdade, não estou aqui para criticar Slumdog Millionaire.

Só quero deixar um alerta para mantermos nossos olhos abertos. Sentir alívio porque Jamal e Latika nunca mais vão passar fome não é catarse, é alienação.

E a música final e ganhadora do oscar também (que eu gostei e até baixei), poderia muito bem ser substituída por "Um Mundo Ideal":

Aladdin: Um mundo ideal
Jasmin: Um mundo ideal
Aladdin: Que alguém nos deu
Jasmin: Que alguém nos deu
Aladdin: Feito pra nós
Jasmin: Somente nós
Aladdin & Jasmin: Só seu e meu.


Exatamente, meu casal preferido da Disney: Só de vocês dois.


Cada prêmio honestamente merecido. Fotografia, trilha sonora, etc, etc. Podem ver sem medo. Recomendando para sair feliz do cinema.

E eu tenho problemas, porque eu achei o ator do Jamal sexy. Não me perguntem porque. E imaginem meu susto ao constatar que ele será o ZUKO na versão cinematográfica de AVATAR.

domingo, 23 de novembro de 2008

O novo de Woody Allen

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


O na Vitrine já teve tempos melhores e, com essa esporadicidade nas postagens, é possível que demore um tempo considerável até alguém aparecer por aqui. Mas não me importa. Tereza e Renata me entenderão: é preciso que essa porta esteja aberta, para nosso próprio bem. Tem horas que queremos dizer, não importa a quem.

Agora são 2h36 da manhã e acabo de voltar do último filme do Woody Allen, que confesso ter ido relutante. Aos fãs do cara, não me achem um anti-allenzista. Minha única implicância com ele é o outro único filme que assisti de sua autoria: Match Point, no qual o insuportável protagonista faz do longa uma experiência nada motivadora.

Vicky Cristina Barcelona, ao contrário, tocaram-me fundo. Aqui, pretendo fugir um pouco da tradicional análise técnica – roteiro, direção, fotografia, etc –, que, passando por cima, estão bastante agradáveis em seu estilo peculiar. Recursos que só seriam vistos com naturalidade há algumas décadas aparecem vez em quando na película. Uma brincadeirinha que acaba trazendo novos ares para cenas que poderiam ter passado em branco. Por outro lado, o cuidado com a cor lembra um pouco o tratamento de produções mais atuais (ou menos antigas), como Amélie Poulain ou qualquer coisa do Almodóvar.

Prefiro seguir a uma interpretação mais “semântica”. Adianto que este post é destinado àqueles que já assistiram ao filme e pretendem discutir sua mensagem. Aos outros, prefiro que aceitem minha recomendação de não perder esta bela oportunidade de ir aos cinemas. Na volta, podemos continuar deste ponto.


Prefiro que seja assim porque, durante aquelas horas, Woody Allen conversou comigo. Também vou fingir que não vi o que a crítica está falando por aí: que “A Barcelona de Allen [...] é de cartão postal. A identidade catalã não se retrata no filme (...) e a vida mostrada no filme é absolutamente irreal (um artista de sucesso com uma supercasa, um supercarro e com amigos poderosos que lhe emprestam seu avião particular)” [fonte]. Pra mim, isso é pequeno para um filme que, intelectualmente, fala na minha língua. A narrativa faz total sentido e cada cena, cada personagem, cada frase do narrador são como o nó que estava faltando. Porque a mensagem do filme estava lá o tempo todo. Em nenhum momento te deixam esquecer que é disso que estamos falando. Espero ser capaz de justificar este pondo de vista. Vou começar definindo disso.

Disso sou eu. Poderia dizer: disso são as pessoas em geral. Mas subtraio-me de tamanha generalização. Então, quero dizer que o filme fala de mim. De como são os meus relacionamentos e de como eu gostaria que eles fossem, principalmente. Fala que para relacionar-se é necessário sofrer, apesar de caber a mim escolher se isso é bom ou ruim, e de como administrar esta condição. Fala também de como essas decisões e, portanto, meus paradigmas e minhas atitudes, criam novos conflitos e novas inquietações. Fala que, afinal, eu e o outro somos relacionados visceralmente. Relacionar-se é o que faz de mim, eu. Por isso também, a vida traz tantas perguntas e tão poucas respostas. Fala, enfim, que todos somos diferentes; e isso diz respeito a mim.

É fácil, para tanto, notar que cada uma das personagens é componente nascida inteira do seu criador, o autor, e também daqueles “eus” que, como eu, identificaram-se com os conflitos explorados. A saber: Vicky e a necessidade de segurança; Cristina – a inconstância e a vontade de se expressar, dando sentido à própria vida; Juan Antonio – os desejos carnais; Pai de Juan – a perplexidade ante a vida; María Elena – a arte à flor da pele e o talento inato; Doug – o comportamento padrão e o peso das estruturas sociais; Judy – o medo de se frustrar. Todos repletos de dúvidas, insatisfeitos com alguma coisa, e movidos pela vontade de tomar as rédeas da própria vida.

No entanto, é interessante notar também como importantes pequenas decisões tomadas pelo escritor fazem com que a mensagem chegue inteira. As protagonistas Vicky e Cristina têm trajetórias que se contrapõe magistralmente, deixando claro como o rumo das desventuras deve ter sido milimetricamente medido para que a visão de uma não se sobreponha a da outra. Isto é, não vemos um traço sequer de moralismo barato da parte de Allen, defendendo um ou outro ponto de vista. O que vemos é um olhar positivo em cima das atitudes ousadas, no matter what. Por exemplo, quando Vicky enfim tenta dar vazão a seus sentimentos e encontra-se com Juan Antonio, sendo surpreendida por María Elena, armada, e se machuca; é neste momento que a personagem parece enfim estar pronta para tomar uma decisão: manter o casamento ou entregar-se a suas paixões? Nada no filme indica que ela tenha tomado uma ou outra decisão, mas o ponto é que, se ela não tivesse dado uma chance para Juan, ela provavelmente se lamentaria sempre, ao sinal de qualquer pequeno problema. É ainda possível inferir que o comportamento desequilibrado de Ma. Elena a tenha assustado de tal forma a dar-lhe a segurança que ela precisava para continuar casada com Doug. Nesta altura da história, contudo, a personagem Cristina, volúvel e pouco convencional em suas atitudes, já abrira mão da vida a três, tomando uma decisão socialmente “louvável”, enquanto Vicky tomava outra socialmente “mal vista”, apesar dos motivos particulares de ambas. O tom da trama, ao contrário da sociedade, não julga, não pesa, não moraliza. Ele diz: “Tente. Você se tornará mais preparado para fazer as suas escolhas”. É isso o que o narrador tenta valorizar ao dizer que "Cristina voltou de suas férias sem ter certeza do que queria, mas apenas com a certeza do que não queria". É como se esse fosse o único amadurecimento possível.

E por que disso? Como o filme justifica seu conselho, aparentemente inofensivo mas, no fundo, subversivo e até assustador? Ora, é a incompletude do sujeito que está constantemente sendo exposta. Essa incompletude não permite ao sujeito abandonar o peso da dúvida, cujo os únicos remédios são o arriscar, quiçá o arrepender-se. Quando Cristina conta à amiga e a seu marido que, sim, vivia um relacionamento à três, amara uma mulher e estava feliz, é nítida a relação vertical entre o eu e o outro. Uma relação lacaniana, também conhecida como “o estádio do Espelho”. É a visão de que o eu se torna eu no outro. Você nasce e cresce absorvendo dos pais, amigos e estranhos as formas corretas de obter prazer e os objetos corretos de prazer, adequando para tanto sua estrutura psíquica e comportamental. Contudo, os pequenos desgostos da vida nos mostram que nem tudo o que é certo é bom e nem tudo o que é errado é ruim. Portanto, quando Vicky ouve de sua interlocutora uma versão unilateral daquela nova forma de felicidade, perfeita e satisfatória, enquanto discurso; seus pequenos monstros voltam a atormentá-la. Porque o outro é sempre quem nos vende a forma ideal de felicidade, fórmula que nunca conseguimos alcançar e portanto nos sentimos fracassados. É a velha história do jardim mais verde no vizinho, acrescida do agravante pensamento: se ela consegue e eu não, algo só pode estar errado comigo. Este conflito é levado ao extremo quando Judy, sofrendo do mesmo mal, projeta suas frustrações em Vicky, levando às últimas conseqüências a paranóia da protagonista.

Ainda assim, os diálogos informais e descontraídos, o visual bonito e clean, a trilha sonora agradável e outros aspectos técnicos conseguem manter uma invejável leveza emocional durante a película. Essa leveza é de um otimismo ímpar. Não é o otimismo vazio de uma felicidade fortuita, mas o otimismo de quem vê as questões mais profundas e angustiantes do ser e ainda assim consegue aproveitar a vida. O pai de Juan Antonio é provavelmente a personagem que carrega melhor essa mensagem. Veja, a imagem de um poeta velho que não publica seus textos por vingança contra a vida não pareceria tão saudável e sorridente senão na fotografia de Allen.

A grande mensagem do filme acaba sendo como um remédio eficaz contra nossa insatisfação crônica. Quando Penélope Cruz, na voz de sua personagem deliciosamente maluca, acusa Scarlett Johansson de nunca estar satisfeita com nada, ela é uma metáfora perfeita da própria vida cobrando-nos sossego. Da mesma forma que Cristina encontra-se insatisfeita, mesmo depois de fugir dos padrões de relacionamento para dar significado a sua vida, o mesmo ocorre com o restante das personagens, em especial Vicky, que se questiona se sua vida perfeitamente “dentro dos planos” lhe trará tranqüilidade (ou felicidade). É nesse sentido que a vida das personagens, e também as nossas, parecem nunca finalizar-se. O filme propõe então esse equilíbrio perigoso, incitando-nos a fugir da mesmice e do óbvio (exemplo, na ridicularização da superficialidade dos amigos de Doug), mas aprendendo a dar valor a nossa própria história e às nossas próprias conquistas. Nas telas, tudo é arquitetado para que possamos compreender isso com plenitude, mas sabemos como na vida real é complicado e difícil enxergar sempre os dois lados da moeda.

Com isto, chega a ser ácida sua visão sobre aqueles que ainda acreditam em certo e errado e preocupam-se, como Doug, em poder dar palpite sobre as escolhas que não são suas. Quando este afirma tão categoricamente que Cristina está fadada à eterna busca por felicidades fugidias, não é capaz de perceber que um certo amadurecimento de sua esposa a levava à inquietações tão semelhantes às da amiga. Outro ponto acertado na história é a participação mínima de Doug, que não chega a ser mortificado. É como se seu “lugar comum” já estivesse pré-perdoado por nós ante a massificação do comportamento.

Por fim, o filme trata do desapego aos ideais. Citando o lema de Maria Elena e Juan Antonio: “o amor só é completo quando idealizado”. Porém, completo não é feliz. É engraçado que esse seja exatamente o joguinho capsioso do filme, que nos diz o contrário: que é a idealização que nos causa sofrimento, e que o amor nunca pode ser esse jogo solto de palavras. Ao dar tratamento equivalente à Vicky e à Cristina, à razão e ao impulso, ao padrão e ao exótico, Allen valoriza a história única (e bonita) de cada personagem. Mostra-nos que não há fronteiras quando nosso objetivo é buscar a felicidade, e mostra, por outro lado, como é infrutífero pretender encontrá-la.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

The Mist


- - - de Tereza_, para o na Vitrine.


Sabe aquele filme (ou livro, ou novela) que o final estraga tudo? São casos bem comuns, difícil é achar um final que faça tudo ficar melhor.
The Mist definitivamente se encaixa nessa raridade.
Fui assistir o filme sem saber muita coisa, além de que era um filme baseado em Stephen King (90% dos filmes baseados em Stephen King valem a pena), sobre um nevoeiro... que matava pessoas.
De ínicio eu já gostei porque o trabalho de câmera é espetacular. É por isso que eu assisto filme de terror inclusive, são os filmes com ângulos e técnicas de filmagem mais legais.
Mas um tentáculo gigante comedor de gente depois e eu já tava, putz filme de monstro, não gosto, monstro não assusta.
Pois é, ledo engano, porque o filme não é sobre monstros nada, e sim sobre pessoas presas numa situação de pressão e como isso é mais assustador do que tudo. Ponha na mistura uma pregadora do Apocalipse carismática e um revolver com dez balas e você tem um dos finais mais chocantes que eu já vi.
Não chocante pelo o que acontece, mas chocante por eles terem tido a coragem de te-lo feito (inclusive porque no conto original do SK o final é deixado em aberto). É quando você está assistindo um filme e percebe que ele seria perfeito se acabasse assim, mas você sabe que eles nunca fariam porque é muito... bom, melhor eu não falar o que, porque eu não quero estragar a surpresa. O negócio é que eles fazem assim e você demora pra processar o que aconteceu.
O filme em si não é perfeito, é meio arrastado em alguns pedaços, a trilha sonora é no máximo adequada e tem alguns efeitos especiais horríveis (embora todos os que se passam na névoa sejam muito eficientes), mas como eu disse, o final e atuações bem acima da média fazem relevar os defeitos.

ps: ah sim, só um último comentário para os fanáticos por Shyamalan como eu, The Mist é tudo que Fim dos Tempos poderia ser e não foi.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O Procurado

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


Título Original: Wanted
Gênero:Ação
Tempo de Duração: 108 minutos
Site Oficial: www.wantedmovie.com
Direção: Timur Bekmambetov



Na verdade, o nome do filme deveria ser "Por que a Angelina Jolie é o máximo?".

Mas agora está tarde e eu não estou com vontade de justificar a minha tese. Talvez a Tereza apareça por aí e faça uma crítica longa e consistente.

Pelo sim, pelo não, contente-se com o meu "Vejam!"

______
Adenda rápida - Apenas para não ficar tão simplista.

Existem outras qualidades no filme, que não a Angelina Jolie: trilha sonora (assinada pelo grande Danny Elfman), bons efeitos visuais, o protagonista é menos detestável do que poderia ser, etc. Além disso, a influência de filmes como Clube da Luta é nítida.

No entanto, existe um castelo, existe um trem, o cara tem "poderes" e se chama Wesley; cresceu achando que o pai morreu e por causa disso buscar o pai é uma razão para viver; pessoas têm ratos de estimação e, enfim, francamente: Ninguém mais pensou em Harry Potter assistindo ao filme não?!

domingo, 15 de junho de 2008

Fim dos Tempos (para o Shyamalan)


- - - de Renata_, para o na Vitrine.


Puxa, eu estava com saudades de escrever aqui...

Então, sexta agora eu fui com mais dois amigos da minha turma de cinema assistir o novo filme de um dos meus diretores (roteirista e produtor também) favoritos, M. Night Shyamalan e me decepcionei seriamente. Pior, estou preocupada com o Shyamalan. A bilheteria já não foi justa com ele em "A Dama Na Água" e eu acreditava que esse filme seria o seu resgate, mas com certeza não foi dessa vez.
Meus amigos DETESTARAM e afirmaram com todas as letras que é OFICIALMENTE o pior filme da vida deles. Eu não me senti assim, mas fiquei sinceramente triste.

E o pior é que eu não sei exatamente o que está errado. Talvez seja tudo. Atores deslocados, roteiro fraco, sem aquela emoção bela de "A Vila" ou o medo inteligente de "Sinais", ângulos esquisitos de câmera (sim sim, estou aprendendo a analisá-los), microfones aparecendo a cada cinco segundos e etc.

A idéia inicial era até boa, tornando o vento e as árvores os vilões maquiavélicos da história, mas a medida que o filme se desenrolava você já estava olhando para os lados e pensando: "É só eu, ou o cara cheirou meia para inventar essa maluquice?", e pensar isso de Shyamalan é praticamente heresia, porque ele sempre fez tanto sentido.

Meus amigos sentiam como se estivessem tendo um sarro tirado de suas caras (palavras deles também), como uma metlinguística maluca de "haha, seus trouxas, olha a idiotice que eu inventei para vocês acharem que estão assistindo um flime de suspense! Dããã!"

A única cena realmente boa foi o Mark Wahlberg (que sabe trabalhar melhor do que daquele jeito) conversando com a planta de plástico. Ali eu vi o Shyalaman que eu conheço se manifestando.

Portanto, não foi bom. Dedão para baixo. Só espero que M. Night não faça besteira com Avatar também, porque aí eu não perdoarei jamais! I'll curse the day he was born! (O filme de Sex and The City por outro lado, foi lindo e eu até chorei...)



E o francês do final era mó gatinho também....

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Juno

- - - de _Tereza, para o na Vitrine.


Se você for parar pra pensar, o grande mérito de Juno não é a atuação brilhante da protagonista, ou o ritmo impecável do roteiro, ou a trilha sonora pra lá de kick-ass, mas sim que daqui a uns anos, quando meus futuros filhos me perguntarem como eu era quando adolescente eu só vou precisar mostrar esse filme pra eles. E se algum perguntar se eu tive um filho com 16 anos e dei pra adoção eles vão mais que merecer um tapa na orelha, porque sério, não é essa a questão do filme.

Juno é talvez o filme mais geracional dos últimos tempos, e mostra que talvez nem tudo esteja perdido, porque crescer hoje em dia, ser uma menina hoje em dia, não é tão ruim assim.

Você pode ser sarcástica e ao mesmo tempo uma romântica idealista, você pode achar graça nos adultos a sua volta e ainda sim se sentir perdida quando eles te decepcionam, e sim, esqueçam essa historia de ser platonicamente apaixonada pelo atleta da escola, pois como diria o produtor de Heroes, o século XXI pertence aos geeks, e se o seu melhor amigo é um desses e ainda por cima te acha linda não importa como, esse é seu cara.

Eu estava lendo crítica de um cara, em que ele perguntava onde estavam garotas como a Juno no highschool dele. Eu só posso dizer, década errada amigo, porque eu conheço tantas Junos que nem tem graça. Não é que eu e a Juno sejamos a mesma pessoa (ela é tranquila demais, na sua situação, pro meu gosto), mas somos definitivamente o mesmo tipo de pessoa.

Porque ficar falando em mais gírias do que palavras de verdade em uma frase e ainda assim demonstrar inteligência é um truque complicado, mas não impossível. Ou então discutir mestres do terror italiano ou o melhor ano pra se ser roqueiro (pra Juno é 77, pra mim, algo entre 65 e 68) sem parecer pretensiosa ou full of shit. E ainda assim nós temos um coração.

Eu percebi que esse filme deve surpreender aqueles que ainda acham que nossa geração se espelha em figurinhas como Regina George ou Marisa Cooper, quando na verdade a gente quer se distanciar dessas pessoas o máximo possível. The beautiful people é boring, o que tá na moda é ser quirky, expressão em ingles que eu nem sei muito o que significa, mas que aparentemente tem a ver comigo.

Pra qualquer um que assistou um episódio sequer de Veronica Mars nada em Juno deve ser além de familiar, porém não deixa de ser extremamente agradável de assistir, com sua história agridoce que tem um final feliz tão bonitinho que dá vontade de suspirar. E flanela é tudo de bom!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Go, Speed Racer, Go Speed Racer, Gooooo!

- - - de _Renata, para o na Vitrine.


Então, apresentar trailers é divertido.




Gostei do casting e da adaptação, com cenários mais coloridos e aposto que Christina Ricci vai deixar a Trixie menos chata. E eu arrepiei toda quando a música tema tocou no início.
Eu adorava o anime quando criança *.*

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Batman Dark Knight - Trailer Oficial

- - - de _Renata, para o na Vitrine.



Data de lançamento mundial: 18 de julho de 2008

Um trailer muito bom, mas estranho porque não mostra muito o Bruce nem o Batman, só focando no Coringa que Heath Ledger interpreta maravilhosamente bem (será que supera o de Jack Nicholson?).
Interessante o casting desses filmes. O Christian Bale ficou ótimo, Michael Caine é o melhor mordomo ever, assim como Cillian Murphy e Liam Neeson nos papéis de vilões do primeiro filme... Mas eles simplesmente não conseguem acertar na heroína... Em Batman Begins, aquela sem-sal-açúcar-ou-qualquer-outra-coisa da Katie Holmes e agora essa Maggie Gyllenhaal, que ficou até bem legal em Mais Estranho que a Ficção mas não acho que encaixa no clima que Dark Knight deveria passar.


Mas mesmo assim... Just can't wait!

domingo, 9 de dezembro de 2007

Some Kind of Wonderful





- - - de _Tereza para o na Vitrine.















Jonh Hughes é o diretor/produtor/roteirista por trás de grandes clássicos teens dos anos 80, como Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles), Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller´s Day Off), O Clube dos Cinco (The Breakfast Club) e Mulher Nota Mil (Weird Science). Seu estilo influenciou toda sua geração e a seguinte, sendo que seus clichês se encontram desde Te pego atrás da escola, Patricinhas de Beverly Hills e até o mais recente Mean Girls.




Dito isso, eu sempre me senti um pouco alienada que meus dois filmes favoritos do gênero, embora influenciado por Hughes, não têm ligação direta com ele. Namorada de Aluguel e O Menino que Sabia Voar são dois filmes "menores" o segundo até divergindo pra uma semi-fantasia, mas eu não posso evitar, a romântica dentro de mim adora um Peter Pan e tem uma certa coisa por cemitérios de avião. Na minha opinião, "Namorada ..." tem a melhor cena final da história do cinema e a trilha sonora tem até Beatles.



A maioria das pessoas que eu conheço considera Ferris o melhor do gênero, e eu nunca neguei isso, é muito bom, só não é o meu favorito. E depois que eu vi Pretty in Pink eu cheguei a conclusão que prefiro Hughes como lançador de tendencias do que como cineasta. Isto é, até ontem.



A primeira vez que eu ouvi falar em Some Kind of Wonderful (que em português tem o tosquíssimo nome de Alguém Muito Especial) foi em Gilmore Girls, a Lorelai descrevendo o filme e apontando como um dos seus favoritos, junto de The Way we Were e Nasce Uma Estrela. Bom gosto indiscutível. Some Kind of Wonderful é oposto complementar de Pretty in Pink. Ou seja, é bom.


Ambos os filmes tem como foco um triangulo amoroso, entre o protagonista, classe média baixa americana com tendências artistícas, o objeto de desejo dele, popular e/ou rico cercado de babacas, e o melhor amigo, que de repente se descobre apaixonado.





As diferenças são basicamente de gênero e de tom. Some Kind of Wonderful é sobre um menino e duas garotas e é provavelmente o filme mais sério de Hughes e Pretty in Pink, o vertice é uma menina e ainda é dado a cenas bobas ou surreais.







Eu acho que o fato de SKoW ser tão melhor pra mim é que é muito mais fácil de me identificar com a tomboy, que é apaixonada pelo melhor amigo, que por sua vez é apaixonado pela menina mais popular da escola, do que alguém que está presa entre dois babacas, o melhor amigo que é o tipo de patinho feio que nunca vira cisne, e o covarde mor da escola, que convida e depois desconvida ela pro baile, supostamente porque ela é pobre. E eu devo achar isso bonitinho, romântico? Idiota isso sim.


O engraçado é que a melhor amiga, Watts (Mary Stuart Masterson) é muito mais bonita que a popzinha Amanda Jones ( Lea Thompson), mas isso pode ser porque eu sou total sucker por meninas de cabelo curto. O protagonista, Keith Nelson (Eric Stoltz), também é all kinds of hot, e olha que eu nem gosto de ruivos, mas fazer o quê, ele é parte pintor, parte mecânico e tem uma cena que focalizam nas mãos dele sujas de graxa que simplesmente, ai ai.

Todos os tres atores tem química das melhores, e todos dão performances acima da média, mas é Masterson que rouba o show, toda cena em que ela aparece é impossivel desviar atenção pra outra coisa. Ela mostra despespero e paixão não corespondida com graça e dignidade dificeis de alcançar. E ela é simplesmente adoravel.


Os coadjuvantes são top de linha. O pai, mistura de orgulho e preocupação tem um gosto de realidade dificilmente apresentado em filmes do gênero, e a irmã pentelha é o alivio cômico na medida certa. Mas o meu favorito é o Duncan, a princípio bully que no final se torna amigo do nosso herói.



O filme é um romance, sim, mas é também sobre as coisas que você deve fazer pra se tornar a pessoa que você deseja ser. As vezes é ir numa festa sabendo que você vai apanhar dos amigos atletas do ricaço da escola, as vezes é descobrir que se pode viver sem pegar emprestado coisas de pessoas que nem gostam tanto assim de você, ou ás vezes é servir de chaufer para o encontro do amor da sua vida com outra pessoa, mesmo que isso parta seu coração.


A trilha sonora, que há uns anos atrás seria considerada brega, nessa moda oitentista de agora é nada além de muito cool, com versões sintetizadas de Rolling Stones e Elvis Presley.


E apesar de o final ser realmente apressado, esse filme supera o gênero e entra pro hall daqueles que você pode assistir vinte mil vezes sem nunca enjoar.



PS: A cena do primeiro beijo pode ser considerada no mínimo antológica.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A Loja Mágica de Brinquedos


- - - de Tereza _, para o na Vitrine.


Já faz um tempo que eu deixei de assistir filmes teoricamente infantis no cinema. Deixa eu reformular, sim eu assisto desenhos, sim eu assisto épicos de fantasia e meu, nenhum filme do Tim Burton pode ser considerado infantil. Mas em relação a "Terabitas" e "Oh não! Ficamos presos no aeroporto no Natal", é, eu prefiro esperar pra ver na tv (e sim, eu vou assistir quando passar).
Mas quando eu vi que "A Loja..." tinha o Dustin Hoffman e a Natalie Portman ultra-cute com cabelo de menininho eu não podia não assistir. Depois eu ainda descobri que o roteiro foi escrito pelo mesmo cara de Mais Estranho que a Ficção.
Perfeito, não? Eh, não...


O negócio com esse filme é o seguinte, ele tinha potencial pra ser o melhor filme de todos os tempos, mas acaba sendo uma decepção. Primeiro, enquanto eu assistia o filme eu notei que a direção era no mínimo estranha, algumas cenas duravam um segundo a mais do que deveriam e os closes eram muuuuuuuuuuuuiito justos. Assim, eu sei que a Natalie Portman é uma das criaturas mais fofas que já pisou na terra, mas eu não preciso ver todos os poros do rosto dela pra perceber isso. E ninguém precisa de tanto CGI pra entender que a loja é mágica. Sinceramente as cenas mais simples são as mais bem feitas, será que ninguém nunca ensinou pra esse diretor que menos é mais?


Depois, o roteiro, de que adianta ter personagens carismáticos, e isso eu não questiono, se a história não tem propósito? O Jason Bateman faz supostamente o antagonista do filme mas tudo que ele faz é discutir um ponto com a Natalie: "Eu não acredito que a loja é mágica" "Isso é porque você é um contador sem coração. Acredite em mim, ela é mágica, eu sei disso porque eu sou música, portanto superior emocionalmente a você" "Okay, eu acredito, agora eu vou abraçar macaquinhos de pelúcia" E é isso! Todo mundo faz esses discursos grandiosos pra convencer outras pessoas de coisas completamente óbvias. Esse é o filme.


O menino que é, também, ultra-fofo, não consegue ter amigos e tem uma coleção de chapéus destoa um pouco da história, embora seja o narrador, mas o arco dele não é finalizado, de nenhum dos personagens é, porque o filme acaba do nada. Mas do nada mesmo. Eu já vi filmes terem finais abruptos, mas um igual esse, nunca.
Será que nunca ninguém ensinou ao roteirista que histórias precisam de conclusão? Não, sério, quem que termina um filme em seu climáx? A impressão que eu tive é que o cara tava escrevendo, chegou nessa parte, não conseguiu pensar num final decente e decidiu terminar por ali mesmo.

Falando assim, até parece que é o filme é o pior do universo, o que não é verdade, tem suas coisas boas (uma delas é o figurino da Natalie Portman, eu quero todas as roupas dela pra mim), mas é só que podia ser tão melhor. Sigh... Nem a trilha sonora salva.

domingo, 30 de setembro de 2007

Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso)

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

Um dos maiores acertos da academia cinematográfica no preciso ano de 1989 foi premiar com o Oscar de melhor filme estrangeiro Cinema Paradiso. Assim, algumas locadoras acabam até considerando a possibilidade de mantê-lo em circulação (na verdade, isso sou eu tentando liberar minha agressividade contra as locadoras de Águas Claras).

Voltando. Eu pensei, na verdade, em postar outra coisa hoje. Uma lista de motivos de por que você não precisa assistir a O Segredo. Mas lembrei que alguém (não vou citar) amou esse filme e resolvi ficar frio. Falar de Cinema Paradiso é muito mais propício, simplesmente pelo fato de esse filme ser maravilhoso.

Qualquer pessoa que se considere minimamente cinéfila tem obrigação tácita de assistir-lhe. A história do cinema antigo é o plano de fundo marcante na trama. Totó (Salvatore Cascio e Jacques Perrin), um bambini italiano nascido na década de 50 (ou 40, mas a história é em 50), tem grande curiosidade pelo ofício de Alfredo (Philippe Noiret), quem opera os projetores de um cinema local. As sessões, cujos filmes são sempre submetidos à censura da igreja, reúnem toda uma comunidade de forma muito diferente das atuais. O cinema é uma distração para o povo, para as massas, e a bagunça é generalizada.

Outras questões também acompanham o desenvolvimento de Totó. A escola, a relação com a família e o seu futuro, em busca de algo que sempre exerceu fascínio sobre ele, além, como sempre, da descoberta do amor.

Mas o mais importante é a simplicidade do filme. A trilha sonora muito fluída do renomado Ennio Morricone soma-se à beleza sutil das imagens, e até das mudanças de foco na própria narrativa.

Cinema Paradiso não apenas fala de cinema, mas é uma das produções mais vigorosas dele próprio. Sua ambientação faceira lhe dá sentido e nos traz, mais uma vez, a imperiosa importância do cinema europeu.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O ano em que meus pais saíram de férias

- - - de Tereza, para o na Vitrine.

Um filme sobre infância, futebol, judaísmo, repressão e ditadura. E de repente parece que você está assistindo um desses filmes sensíveis italianos sobre a guerra. O que faz sentido, porque eu sou da opinião que em termos emocionais e artísticos o que mais se aproxima da guerra pro Brasil, e talvez para a América do Sul, seja a ditadura. Por isso é um tema tão revisitado.

E apresenta algumas inovações. São poucas explosões, as catarses são silenciosas, poucas vezes óbvias, o que dá uma qualidade diferente pro filme. O Cao Hamburguer é um bom diretor, principalmente de imagens, ele sabe onde colocar a câmera, sabe o que filmar. E a fotografia é primorosa, o ritmo nervoso quando tem que ser e estático, quase agoniante quando é necessário.

O maior problema do filme, sinceramente, são as atuações. Ou melhor, os diálogos. Tem uns que são dificéis de engolir e você pensa que o problema são os atores. Mas não, porque assim que eles calam a boca e só reagem, o filme melhora 200%. Ainda bem que na maior parte do tempo é silencioso.

É um drama, sim, mas tem momentos muito engraçados. Graças a Deus não é daqueles dramalhões forçados.

Uma das coisas que mais me impressionou é o quanto a infância é bem retratada. Filmes costumam ter duas formas de tratamento, ou são crianças hiper precoces que tomam conta dos adultos ao seu redor, ou são debeis mentais que nunca tiveram educação, todos com idade mental de 3 anos. Aqui as crianças apresentadas parecem reais, lembram a minha infância e da dos meus amigos.

Por fim, a metáfora de que o goleiro quem deve estar sempre preparado, embora esteja sozinho até que é sutil. Um filme bom, que tinha potencial pra ser ótimo.


terça-feira, 4 de setembro de 2007

Simpsons - O Filme


- - - de Renata, para o na Vitrine.

Eu dedico esta postagem ao querido Rafael. Porque eu sei a exata intensidade dos sentimentos dele pelo programa dos Simpsons e tenho uma considerável noção do que ele deve estar pensando ao ver uma matéria sobre eles no blog que ele criou e montou com tanta dedicação e esmero.


Ironia é uma arte. Seu perfeito equilíbrio com aventura, ação, amor, comédia pastelão, crítica social resultou nesta animação que vos apresento e que foi tão prazerosa de se assistir.

Quem conhece a série em seus pequenos detalhes com certeza compreenderá melhor a proposta do filme, mas sem dúvida o divertimento é geral. Mas já devo ir dizendo, na verdade, a peça não passa de um episódio de maior duração, com uma qualidade de animação bem maior e cinco ou seis cenas mais pesadas (para a TV americana, não a nossa). Mas quem reconhece como a série é extremamente boa sabe como isso não é um problema, mesmo.

Matt Groening, o criador do universo simpsioniano (hehe, acabei de iventar essa palavra, eu acho), para mim é um completo gênio. Ninguém jamais revelou com tanta precisão, humor e inteligência, os aspectos (absurdos ou não) da vida típica americana. E tudo através de um desenho animado com mais de 18 anos de duração, onde os brancos são as únicas pessoas com a coloração da pele representada erroneamente.

A trama é simples e bem contada. A cidade de Springfield (sem localização certa, exatamente porque existem milhares de cidades chamadas Springfield pelos EUA) e seus moradores (espelhando o próprio país) ignora seus problemas de poluição ambiental e se torna a cidade mais poluída dos EUA. O governo estadunidense (com um presidente 1% mais competente do que o atual) toma medidas drásticas e tipicamente estúpidas para resolver a questão.

Neste interím, Homer Simpson, o americano mais bem representado da história da Televisão (e agora do cinema!), entra em um grande conflito interno, ao perceber sua incapacidade de ser um chefe de família decente, principalmente para Bart Simpson, que começa a questionar seriamente o abandono paterno. Marge e Lisa representam a sensatez feminina que Matt Groening tanto valoriza. Uma é a eterna esposa dedicada e piedosa, quase santa, e a outra é a filha de cérebro afiado e alma romântica (em algumas cenas eu quase morri de rir, de tanto que meu comportamento parece com o dela).

Para quem assistir dublado, um grande revés: a voz de Homer está alterada, refletindo um sério problema da dublagem brasileira. Apesar de ser considerada uma das melhores do mundo, seus artistas não recebem o devido respeito no ambiente de trabalho. Waldyr Sant'Anna, o Homer verdadeiro, rompeu com a FOX e está a processando depois do uso não-autorizado de sua voz nos DVDs da série. Ele chegou a escrever uma nota oficial aos fãs, agradecendo o apoio e lamentando toda a situação. Consequentemente a falas de Homer ficaram xoxas e vazias, e serão assim daqui para frente, apesar do visível esforço do dublador Carlos Alberto, o substituto oficial.

Altamente recomendado se você quer rir de piadas inteligentes, espertas, rápidas, exageradas, infantis, adultas e que lá no fundo, também parodiam você.




E esperem a cena depois dos créditos, para pensarem em mim.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A vida secreta das palavras


- - - de Tereza_, para o na Vitrine.


Uma mulher loira, não muito bonita, não exatamente feia, com olhos muito mais velhos que o resto do rosto, janta, lava a louça, e se deita sem fechar aos olhos. Ao fundo uma voz infantil relata fatos do cotidiano: ela afaga meu cabelo, me conta histórias, canta pra mim, ás vezes chora... E cena.

Quem é a criança? Quem é essa mulher? Essa é a questão do filme. Ela não fala muito, gosta de ser deixada em paz, mal reage. Apenas sobrevive.

Ela pega um ônibus, duas senhoras discutem Vin Diesel e Van Dame. Conclusão, Vin Diesel é melhor ator, Van Dame talvez tenha mais músculos. Será isso importante? Será que qualquer coisa da vida importa?

A mulher, Hanah é seu nome, é contratada como enfermeira para cuidar de uma vítima de um acidente em uma plataforma de Petróleo que esta sendo desativada.

Longas cenas de dialogo, com cortes que parecem pulos no tempo mas na verdade são voltas. O acidentado é um americano que apesar de temporariamente cego e com queimaduras dolorosas pelo corpo todo, aparentemente não consegue parar de falar. Inicialmente ele destoa do resto do filme, que é escuro, fechado, silencioso, mas ele é um dos personagens mais tristes.

Através de mentiras ela conta verdades pra ele, no que se revela ser um recorte de tragédias. Como apreciar a vida, ser simpático a tragédia de outros, não achar tudo obsoleto, quando a pior coisa do universo aconteceu com você? Quando até a morte é uma benção que te é negada?

Ele é melodramático e carente, ela seca e divertida. Por mais devastadora que seja a história nunca é piegas ou melosa. Tem até seus momentos de leveza. Um mistério é instigado, mas quando for a hora de você saber a verdade será que vai ter estomâgo?

Eu entendo a intenção do filme, é importante que certas coisas não sejam esquecidas, mas será que depois de tudo ainda é possível um final feliz?

A voz infantil acredita que sim, aparecendo numa hora em que já nem me lembravámos dela. Resta saber se nos acreditamos nela.

O filme é ousado, mas não saí dele pensando "nossa, que filme bom" e sim "nossa que filme triste". Será isso o suficiente?

terça-feira, 7 de agosto de 2007

21 Gramas

- - - de Rafael, para o na Vitrine.

"Dizem que perdemos 21 gramas no preciso momento da nossa morte...todos nós. O peso de cinco moedas. O peso de um pedaço de chocolate. O peso de uma borboleta...Quanto pesa a vida?"


Título Original: 21 Grams
Gênero: Drama
Direção: Alejandro González-Iñárritu

Essa crítica, vou começar pelo defeito: o roteiro. Não quero dizer que ele seja mal feito ou mal trabalhado, mas a verdade é que eu já enjoei disso: recortes de cenas, vindas de espaços, tempos e personagens diferentes, montando um grande quebra-cabeça que só vai fazer sentido no final, à la Crash, O Grande Truque, Babel (por sinal, do mesmo diretor)... para citar os mais recentes, apesar de existirem muitos outros semelhantes. Pra ser sincero, essa é exatamente uma característica que teria feito o Rafael de alguns anos atrás se apaixonar perdida e loucamente pelo filme. Acontece que, não sei, essa receita não me impressiona mais. E quer saber, eu nem deveria ter escrito que isso é um defeito. Eu sei que, nas Artes principalmente, nada se cria; tudo se copia. Esse parágrafo foi tão pessoal que não faz nem sentido. Por tanto, a menos que você tenha se identificado com os meus sentimentos, para você a crítica começa agora.

21 Gramas é um desses filmes de beleza plástica. A câmera tremida, sabe, dá aquele ar de cinema alternativo muito gostoso. E o efeito não engana. É muito bem encaixado. Os filtros de cor também, causando um contraste sutil, uma impressão meio opaca. É tudo muito impressionante e bonito. Mas nada tão na cara. A beleza da fotografia é tênue... Apreciei bastante.

É um filme de impressões. Com símbolos muito fortes. Numa das primeiras cenas, um pai e suas duas filhas pequeninas sentados numa lanchonete, eu senti isso. O close da câmera está num canudo saindo de um líquido negro e borbulhate. A cena vai abrindo e descobrimos, em segundos apenas, que é a criança quem sopra o canudinho para borbulhar sua Coca-Cola. Mas a sensação inicial não era essa. Era de algo mais nojento, eu imaginei que fosse alguma droga, não sei porquê (alguém já ouviu falar em uma droga líquida, negra e borbulhante? Eu não). E, então, as crianças com seu pai. Um jogo muito estranho. Durante todo o filme, tudo permaneceu com a sensação de ser mais bonito do que parecia. Mesmo as cenas fortes, com drogas (de verdade) e sangue.

“Um filme de AMOR, ESPERANÇA e VINGANÇA”, dizia na capa do DVD. Mas, sinceramente, eu não esperaria encontrar muito disso não. Na verdade, por mais que seja uma trama complicada, e personagens profundos, tudo me pareceu justamente sem história. As cenas são ótimas. Mas não há lições de moral, e nem fica tão claro qual era o coração da trama. Eu diria que é, antes, um filme de como a vida passa, de como as pessoas são. Assim mesmo, sem grandes propósitos, como se o tempo simplesmente passasse. Apenas isso. O que não é pouca coisa.

O incrível é que eu sinto que o filme me impressionou da forma justamente oposta à proposta do diretor. Gostei muito das suas qualidades, mas não me surpreenderia se qualquer um achasse essa crítica completamente precipitada.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Saneamento Básico, o Filme

- - - de Rafael, para o na Vitrine.


Jorge Furtado é sem dúvida um dos maiores diretores do atual cinema nacional. Em sua filmografia estão incluídos os notáveis Ilha das Flores (curta), O Homem que Copiava e Meu Tio Matou um Cara, voltando esse ano às telonas com Saneamento Básico, o Filme, uma ótima comédia com elenco de primeira categoria.

O enredo de Saneamento Básico se passa em uma vila humilde de descendência italiana, conhecida como Linha Cristal. Um lugar onde esgoto corre sem planejamento, causando mau cheiro e doenças. Inconformados, os moradores se reúnem numa assembléia para reivindicar investimento da prefeitura, mas não são exatamente atendidos. Não diretamente. Acontece que a prefeitura não possui verba para a obra de infra-estrutura, mas consta no orçamento uma quantia de dez mil reais para a produção de um filme de ficção que, não sendo rodado, deverá ser devolvido para o governo federal. Ante a situação, Marina (Fernanda Torres), moradora de Linha Cristal, topa o desafio de produzir o filme. Lança-se junto ao marido a desvendar o significado da palavra “ficção”, às dificuldades de construir um roteiro, à pelejar patrocínio... E assim, o filme acaba tratando da feitura de outro filme, por pessoas ignorantes, sim, mas com um objetivo nobre: a busca de dignidade.

Mais uma vez, o diretor amarra todo o filme com uma capacidade invejável de construir diálogos. Muitas são as vezes em que várias personagens, Marina e o marido Joaquim(Wagner Moura), em especial, gritam ao mesmo tempo, numa discussão quase infantil, em que o mais importante é fazer barulho. O que provavelmente não teria um impacto tão estampado se não fosse a atuação magnânima dos atores envolvidos. É técnica puramente cinematográfica, que não caberia em uma novela, por exemplo. É quando J. Furtado dá vida ao seu filme, filme mesmo. A tensão e a distração andam juntas, acompanhando também a ingenuidade que as personagens inspiram.

Outro ponto é a interpretação forçada do elenco do filme a ser rodado. Imagine você, sem nunca ter visto um filme na vida, ou, se já, foram raras as vezes, tendo de atuar para a câmera. Mais, com um roteiro simplório e falas irrisórias. O filme é assaz cômico nesses momentos. Porém, ainda resta ao fundo aquela crítica social: o cinismo dos governantes, a forma dúbia em que é remanejada a verba pública.

Resumindo. É um filme inteligente, engraçado, político, metalingüístico, com atores excelentes e diálogos; excelentes diálogos. Com direito até a mensagem ecológica no final. Filme de primeira.

imagens em http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/

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na Vitrine.